terça-feira, 13 de julho de 2010

A ABOLIÇÃO DOS ESCRAVOS NO CEARÁ

A ABOLIÇÃO DOS ESCRAVOS NO CEARÁ O Estado do Ceará se destacou no cenário nacional como a primeira província a decretar a abolição dos escravos em terras brasileiras, em 25 de março de 1884. Por este fato glorioso José do Patrocínio, o Tigre da Abolição, num dos seus discursos de improviso, denominou o Ceará de “Terra da Luz”.
O presidente da província, o governador Dr. Sátiro Dias, assinou a “Lei Áurea Cearense” em um grande ato cívico na Praça Castro Carreiro, uma medida que se antecipou em quatro anos da política nacional, que só decretou a abolição de uma vez através da Lei Áurea, assinada pela princesa Izabel, em 13 de maio de1888.
A abolição foi um fato histórico, que projetou o Ceará no cenário nacional e de certa forma fortaleceu o movimento no país. Joaquim Nabuco, uma das principais figuras da abolição no Brasil, ressaltou o papel do Ceará como um marco histórico. Dizia ele em discurso proferido no Congresso antiescravista de Paris em 1900: “A jangada, o pequeno soalho à flor das ondas, o destroço flutuante no qual os pescadores percorrem os mares do norte do Brasil tornou-se um símbolo abolicionista.”
Diante de uma perspectiva histórica, o pioneirismo de um trabalho voltado para causa abolicionista na província do Ceará, registra-se a participação de Pedro Pereira da Silva Guimarães, natural de Aracati, quando em 22 de março de 1850, apresentou no Parlamento Nacional uma proposta emancipatória.
Conforme Raimundo Girão (1988): “os anais do parlamento registram que em sessão de 22 de março, foi lido o projeto de Silva Guimarães sem ter sido julgado objeto de liberação: - ” Todos os nascidos do ventre escravo no Brasil serão livres e a partir da lei. (art.1º) Os senhores de escravos ficam obrigados a libertá-los quando estes, pela sua alforria, derem quantia igual pela qual foram comprados, doados ou havidos a qualquer título (art. 2º). O escravo casado não pode ser vendido ou alienado de qualquer forma sem que o acompanhe o cônjuge, sob pena de nulidade de alienação.”( art. 3º )
Esse projeto recebeu violenta repulsa por parte de seus colegas congressistas adeptos da escravidão. No entanto, foi apresentado novamente em 04 de junho de 1852, e desta vez, foi pelo menos ouvido, violentamente discutido, mas não aprovado.
Em 1853, o decreto de nº 1.303, de autoria de Nabuco de Araújo determinava “que os africanos livres que tenham prestado serviços particulares pelo espaço de quatorze anos sejam emancipados quando o requeiram; com obrigação porém de residirem no lugar que for designado pelo governo e de tomarem ocupação mediante salário.” (Luis Veiga, 1876). Todavia requerer e provar o tempo de serviço, não era simples e nem fácil provar o prazo de serviço prestado a particulares dentro do estabelecido. Já o Decreto Nº 3.310, de 24 de setembro de 1864, encurta o prazo de quatorze anos, declarando-os definitivamente livre, passadas as cartas de liberdade. Outro decreto, de 06 de novembro de 1866, concedia liberdade gratuita aos escravos que pudesse servir ao exército, bem como título de nobreza ao senhor que os fornecessem.
Todavia a resolução de nº 1254, sancionada em 28 de dezembro de 1868, de autoria do deputado Manuel Ambrósio Portugal sancionada pelo Presidente da província do Ceará, Diogo Velho Cavalcante de Albuquerque, autorizava o Executivo a despender anualmente a importância de 15:000$ contos de réis com a alforria de cem, de preferência do sexo feminino, os quais serão libertados na pia, a cem mil réis cada um”. Cabia ao governo distribuir essa quantia pelas diferentes comarcas da Província, na qual seria formada uma comissão constituída pelo pároco, pelo juiz municipal e o presidente da Câmara do município. A alforria feita por um documento asssinado pelo senhor do escravo e pela comissão em livro próprio. O escravo deveria ficar com a mãe até os 14 anos. A regulamentação dessa proposta só aconteceu em 8 de novembro de 1870, pelo presidente João Antonio de Freitas Henrique e tinha a seguinte redação: Artigo Único: - Fica em vigor a Resolução de número 1.254, de 28 de dezembro de 1868 com as seguintes alterações: Artigo §1º -Fica o presidente da província autorizado a despender anualmente a quantia de 20:000$ com a alforria de escravos, cuja idade não exceder a sete anos; § 2º-Os do sexo feminino serão alforriados de preferência aos do sexo masculino; §3º Cada escravo dos que tratam os parágrafos antecedentes será libertado por preço nunca excedente de 120$”
Essa proposta chegou a alforriar 112 cativos, conforme relatório do Presidente Freitas Henrique (1870 p. 170).
De acordo com Raimundo Girão (1988 pg.77), essa resolução contribuiu para o envolvimento diversas sociedades e associações na causa abolicionista. A primeira sociedade libertadora surgiu em 25 de maio de 1870, a de Baturité e em 25 de junho, do mesmo ano, a de Sobral, denominada Sociedade Manumissora Sobralense.
As propostas governamentais não contribuíram para promover expressivamente a libertação de escravos, mas de certa forma, serviram como registro de que os poderes públicos – executivo e legislativo – estiveram unidos em dois projetos de emancipação de escravos no Ceará.
Em 28 de setembro de 1879 foi instalada a Sociedade Perseverança e Porvir, em homenagem ao oitavo aniversário da Lei do Ventre Livre. A Perseverança e Porvir tinha sua sede na residência de José do Amaral, na antiga Rua Formosa (atualmente Barão do Rio Branco), fundada com 10 sócios, que tinham como principal objetivo “ tratar de negócios econômicos e comerciais em proveito de seus fundadores, propunha-se também, a alforriar escravos (...)” (SILVA,1988).
Eram membros dessa organização antiescravista: José Correia do Amaral, José Teodorico de Castro, Joaquim José de Oliveira Filho, Antonio Dias Martins Junior, Antonio Cruz Saldanha, José Barros da Silva, Francisco Florêncio de Araújo, Antonio Soares Teixeira Junior, Manoel Albano Filho e Alfredo Salgado.
A entidade propunha-se a manter um fundo de emancipação através de contribuições de seus associados. O que se sabe é que após um ano de existência da sociedade, contava com apenas a alforria de uma escravinha, enquanto que a Resolução nº 1.254 em seu primeiro ano de existência havia alforriado 112 crianças. Todavia a Sociedade Perseverança e Porvir chamou mais a atenção da opinião pública, com publicidade e discursos que a alforria dos 112 escravos.
A participação do poder público em relação à causa abolicionista também ficou implícita, por ocasião da solenidade de criação da Sociedade Cearense Libertadora, no dia 08 de dezembro de 1880, com 227 sócios. *
Em toda a sessão reinou muita ordem e nem uma voz se ergueu, senão para aplaudir.” (Antonio Martins citado por Raimundo Girão).
“Tem lugar no salão de honra da Assembléia Provincial, em Fortaleza a inauguração da Sociedade Cearense Libertadora, promovida sob os auspícios da sociedade – Perseverança e Porvir- com o fim de promover a emancipação do elemento servil da província.” (Barão de Sturdat pág. 285).
Foi indicado para presidir provisoriamente a Cearense Libertadora, João Cordeiro e vice José Correia do Amaral que escolheram o dia 30 de janeiro de 1881, para a criação dos estatutos da sociedade. Compareceram uns vinte sócios, na antiga Bolsa do Comércio, localizada na Praça José de Alencar. João Cordeiro os conduziu para uma sala denominada por ele de Sala de Aço. “Ali achava-se uma mesa grande coberta por um pano preto, duas lanternas nos extremos e vinte cadeiras em torno. Depois de fechada a porta de entrada e acesas as velas das lanternas, João Cordeiro que ocupava o centro das cabeceira, levanta-se, arrancando da cava do colete um punhal, atira-o com força no meio da mesa, onde ficou cravado, oscilando sinistramente ao reflexo das luzes, e disse: - Meus amigos, exijo de cada um de nós um juramento sobre este punhal, para matar ou morrer, se for preciso, em bem da abolição dos escravos. Vamos travar uma luta horrível com o governo, e por isso está em tempo de se retirar aquele que for amigo do mesmo governo ou dele for dependente. Quem não tiver coragem para tanto pode sair, que ainda sai em tempo. Logo se retiraram onze sócios. Acrescenta Bezerra juraram, de conformidade com o cargo que exerciam provisoriamente... E que João Cordeiro lhe ditou, e ele escreveu, os seguintes desconcertantes estatutos: Art. 1º Um por todos e todos por um. Parágrafo Único- A sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance.” (Antonio Bezerra apontamentos da Ata - apud Girão,1984)
Dessa forma optaram por uma sociedade carbonária, sem ligações com o governo, raptavam escravos das fazendas, escondiam escravos fugidos, disfarçando-os em roupas finas, enviando-os para longe com cartas de alforrias falsas. Por ocasião de venda de escravos, os membros da Sociedade e suas mulheres doavam para um fundo, relógios, correntes, anéis e brincos de ouro para resgatá-los e dar-lhes liberdade.
Para divulgar o movimento abolicionista fundaram o jornal “O Libertador” que já preconizava o fim da escravidão, o primeiro número circulou no dia 1º de janeiro de 1881. O livro caixa do Jornal estava sempre em branco, cada um gastava o que podia. Em sua 8ª edição, datada de 23 de maio de 1881, na página três estava impresso: “Adeus cativeiro, por todos os modos vai-se extinguindo na briosa província do Ceará o triste domínio do homem sobre homem. A escravatura decresce consideravelmente: as baixas na matricula geral de escravos já incomodam os empregados do fisco. A Libertadora Cearense dará o golpe d’estado primeiro que o governo. E nós damos nossos pêsames aos negreiros por mais estas manumissões que passamos a registrar: as diversas alforrias já foram publicadas até o nº 05 deste jornal- 41. Outras e efetuadas pela Libertadora Cearense, em 25 de março- 35. Mais três manumissões realizadas no dia solenemente de sua inauguração pela denotada Sociedade Libertadora Baturiteense. Total 79”.
As denúncias empreendidas pelo Libertador geraram a formação de uma opinião pública contra a escravidão. Novas adesões fortaleceram o movimento.
No dia 25 de março de 1881, a Sociedade alforriou 35 escravos. As alforrias conseguidas pela Sociedade Libertadora Cearense, na sua grande maioria, foram por indenização ou sob condição de servirem aos ex-senhores na condição de criados. Dava-se a liberdade ao negro, mas mantinha-o agregado, morador ou criado, na realidade deixava de ser escravo, mas passava a ser um dos homens do coronel.
Outra sociedade muito contribuiu para o movimento abolicionista fundada em 19 de dezembro de 1882, o Centro Abolicionista 25 de Dezembro. Foram membros dela: João Lopes Ferreira Filho, Julio César da Fonseca Filho, Joaquim Domingues da Silva, Dr. Meton da França Alencar, Antonio Leal Miranda, Cônego João Paulo Barbosa, Afonso Albuquerque, Dr. Guilherme Studart-Barão de Studart, José Martiniano Peixoto de Alencar, Bento Luiz Gama e Narciso Vieira da Cunha. Anunciada a eleição da Diretoria, 3 escravos foram libertados e, em 4 de janeiro de 1883, mais 54 foram alforriados. O Centro Abolicionista queria a liberdade dos escravos pela ordem jurídica, pelo regime de paz, pela persuasão, a Libertadora, ao contrário, queria pelos meios revolucionários.
A emancipação do Ceará foi um acontecimento decisivo para a causa abolicionista nacional. O efeito moral de uma província livre, resgatada e, desde então fechada para a escravidão, foi imenso; o político imediato. Segundo os dados do historiador Raimundo Girão, no livro “Abolição do Ceará- entre 1850 a 1880 foram exportados em torno de 16.500 escravos para o resto do país. Havia em nosso estado firmas especializadas no comércio de exportação de escravos, dentre elas a empresa do Barão de Ibiapaba que se especializou nesse tipo de comércio.
Mesmo com a intensificação do comércio exportador, a população negra no Ceará era de 31.516 escravos, segundo dados levantados pelo Jornal o Libertador que tinha a frente João Cordeiro – uma personalidade central no processo abolicionista. Como os navios podiam atracar nos portos, as jangadas serviam como instrumentos de ligação entre os navios que ficavam bem distante da costa levando mantimentos e escravos que embarcavam nos navios.
Francisco José do Nascimento, (Chico da Matilde) o “Dragão do Mar” tomou a frente do movimento para que nenhuma embarcação recebesse ou despachasse escravos. Fortaleza, capital e porto da província do Ceará, devido ao mar bravio, era péssimo ancoradouro e, por isso, os embarques e desembarques tinham que ser feitos por jangadas, as únicas que conseguiam vencer as ondas desse trecho cearense. Essas também transportavam passageiros e cargas para os navios ancorados. Os jangadeiros aliciados pelos abolicionistas decretaram que não embarcariam mais escravos, era mais uma porta se fechava ao comércio de seres humanos.
Era um dia de espetáculo no Teatro São Luís, a principal casa de espetáculos de Fortaleza. Nos intervalos das peças teatrais era costume fazerem-se discursos e recitarem-se poesias. Pedro Artur de Vasconcelos levanta-se e lança a idéia de interditar, no Porto de Fortaleza para o embarque de escravos, idéia logo aceita e aplaudida por todos os presentes. Lembrou que se poderia conseguir dos jangadeiros não transportar mais escravos para bordo de navio algum. Para tal deveria aproximar-se dos capatazes e dos jangadeiros através de José Luiz Napoleão, ex-escravo alforriado às próprias custas. Este exercia grande liderança sobre seus companheiros juntamente com o Chico da Matilde. Juntaram-se a eles, o jornalista Júlio César da Fonseca e José Amaral.
Certo número de escravos deveria seguir pelo vapor “Espírito Santo”, dia 27 de janeiro de 1881 Pedro Artur e José do Amaral recorreram ao chefe da capatazia para impedir o embarque de escravos. Coube a João Carlos Jataí, Isaac do Amaral e Antonio Bezerra convidarem o maior número de pessoas para irem à praia na hora do embarque, e os outros como Antônio Cruz Saldanha, Antônio Dias Martins e José Teodorico de Castro convencerem os jangadeiros a fazerem a greve. Mais de mil pessoas de todas as classes sociais foram ao local de embarque para o espanto dos traficantes de escravos, que indignados recorreram à polícia para garantir o direito de mandar a sua mercadoria. Foram repelidos, vaiados pela multidão que gritava: “No porto do Ceará não se embarca mais escravos”, apoiando assim a greve dos jangadeiros que de braços cruzados recusavam-se deixar a praia.
Segundo o jornal o Libertador, esta frase partiu ao mesmo tempo de todos os lábios, era uma idéia que estava em todas as inteligências, um sentimento que brotava em todos os corações.
O movimento praieiro prossegue agora liderado por Francisco José do Nascimento que passou a freqüentar as reuniões da Sociedade Libertadora. Outro fator determinante foi o apoio do governo provincial para implantar a abolição no Ceará. Em 1868, o governo aprova recursos para a libertação de escravos, mediante pagamento aos donos de escravos. A partir dessa resolução governamental foram formadas juntas de conciliação, que fazia o censo da população negra de cada município. É conveniente salientar a diminuição acentuada da população negra, com a intensificação do tráfico interprovincial, o Ceará exportou parte da população negra via estado de Pernambuco. Não podemos também esquecer a influência da intelectualidade francesa – os ideais de liberdade e igualdade da Revolução Francesa, que influenciaram os nacionalistas.
Podemos citar Manoel de Arruda Câmara, um nacionalista exarcebado, que influenciou personalidades importantes como Bárbara de Alencar. Em 30 de novembro de 1882 é fundada a Cearense Libertadora, “uma sociedade abolicionista das distintas filhas do Ceará. (Simone Souza, 1994) A reunião aconteceu na residência de José do Amaral, no bairro do Benfica e na ocasião foram alforriados seis escravos. A Cearense Libertadora era assim constituída: Diretora Geral- Maria Tomásia Figueira Lima; 1ª Vice-presidente: Carolina Cordeiro; 2ªVice-diretora- Ludivina Borges; 1ª Secretária Jacinta Augusto Souto; 2ª Secretária- Elvira Pinho; Tesoureira-Eugênia Amaral e outros membros. O Libertador consagra-lhes o editorial: “ Vós, Exmas. Senhoras Libertadoras, viestes completar, apressar o dia da nossa vitória.” Foi importante o trabalho dessas mulheres conforme destaca Simone Souza (1994): “as damas libertárias intensificaram a campanha redencionista, indo a encontro das pessoas que mantinham seus serviçais em regime de escravidão”.
No entanto, na interpretação dos historiadores o fator determinante para a libertação dos escravos no Ceará foi o apoio da população e a adesão de alguns proprietários.
O jornal “O Cearense” que circulava em Fortaleza, editou uma nota em 29 de março de 1884. Transcreveremos alguns trechos: “O centro desse pavilhão era ocupado por três a quatro mil pessoas de todas as classes sociais. No fundo havia uma mesa central, junto a qual tomavam assento os Exmos. Srs. Presidente da Província, Dr. Sátiro de Oliveira Dias, D. Luis, Acerbispo da Bahia.Terminaram ontem, por uma procissão cívica e esplêndida, os festejos celebrados nesta capital, para comemorar o auspicioso acontecimento de redenção no Ceará. (...) que se realizou a 25 de março, em um pavilhão aberto, levantado na praça. Estavam presentes D. Joaquim, Bispo Diocesano, Dr. José Dantas Filho, Chefe de Polícia e o Senador Castro Carreira. (...) Começou a solenidade ao meio dia, pelo Hino da Redenção cantado por um coro de senhoras, auxiliadas pelos artistas da Troupe Lírica que foram estrepitosamente aplaudidos. Em seguida tomou a palavra o Exmo Sr. Presidente da Província que proferiu entre grandes aplausos um eloqüente discurso, expandindo o entusiasmo na população um verdadeiro frenesi, quando S. Exa pronunciou as palavras finais declarando a Província livre de escravos. (In. Jornal Cearense, Fortaleza, 29 de março de 1884).”
O Jornal do Senado transcreve o final do discurso do Exmo Sr. Presidente da Província Dr. Sátiro Dias: “Para a Glória imortal do povo cearense e em nome e pela vontade desse mesmo povo, proclamo ao país e ao mundo que a província do Ceará não possui mais escravos.”

9. A ABOLIÇÃO NA VILLA DO ACARAPE: ATUAL REDENÇÃO
O movimento abolicionista efervescente na província do Ceará tornou-se assunto em todas as rodas sociais, inclusive no interior. Manuel Fernandes de Araújo tivera que ir a Fortaleza recolher saldos da tesouraria. Viu como estava muito avançado o movimento emancipador e ao voltar comunicou ao coletor Joaquim Agostinho Fraga o que vira na capital. Ambos se reuniram com o coletor provincial Antonio da Silva Matos e falaram da intenção de fazer algo pela libertação dos escravos na Vila do Acarape. Deram os primeiros passos positivos, o próprio Matos alforriou os três escravos que possuía exemplo seguido pelos senhores Simeão Teles Jurumenha, Gil Ferreira Gomes de Maria e Emiliano Cavalcante... ( entrevista de Joaquim Fraga no jornal O Estado de Fortaleza, 1945)
Para que esse movimento tomasse impulso, precisavam de adeptos para convencer os proprietários de escravos. Era pároco na época Pe. Luiz Bezerra da Rocha que pregava a seus fiéis os preceitos da fé cristã baseados na caridade, no amor ao próximo e na liberdade. Conseguiram a adesão do sacerdote que passou a pregar contra a escravidão nos seus sermões.
Assim os primeiros passos estavam dados e, em novembro de 1882, uma comissão da Sociedade Libertadora composta por João Cordeiro, Almino Affonso, Antonio Martins e Frederico Borges, José marrocos visitaram a Villa do Acarape com o propósito de apoiar o movimento abolicionista que aqui se formava. Foram recebidos no salão de honra da Câmara Municipal pelo vigário Padre Luis da Rocha, Deocleciano Ribeiro de Menezes. Após a reunião almoçaram na casa do Sr. Antonio da Silva Matos, que na ocasião entregou uma carta de alforria a um escravo. Então, em 08 de dezembro de 1882, foi fundada a Sociedade Redentora Acarapense assim constituída: Presidente- Gil Ferreira Gomes; Procurador- Antonio da Silva Ramos; 1º Secretário- Henrique Pinheiro Teixeira; 2º Secretário-R. A. Gomes Carneiro; Tesoureiro –Padre Luiz Bezerra da Rocha; Delegado- Deocleciano Ribeiro de Menezes. Em 14 de dezembro foi fundada a Sociedade Libertadora Artística Acarapense.
Ainda no mês de dezembro representação da Sociedade Redentora Acarapense formada por Gil Ferreira Gomes de Maria, José Raimundo Maravalho, Henrique Mendes Cavalcante, Antonio Guedes Souto Maior, Antonio Silva Matos, Ismaeal Benvindo de Vasconcelos, Horácio Holanda, José Barros Coelho, José Idelfonso e Jacó de Castro e Silva viajou para Fortaleza a fim de estabelecer contatos com os abolicionistas e solicitar apoio e colaboração para a alforria de escravos. Nesta época encontrava-se em Fortaleza, José do Patrocínio que participou da reunião. O mesmo fazia conferências no teatro São Luis, sempre em companhia dos membros da Sociedade Libertadora. As entradas eram pagas e o produto destinado às alforrias dos escravos de Acarape. O Libertador publicou em uma de suas colunas: “Para auxiliar o generoso e nobilíssimo movimento dos ilustres concidadãos do Acarape, abrimos hoje neste diário uma subscrição em favor da liberdade dos escravos que restam naquela florescente vila, destinado a ser o primeiro município livre da Província e do Império. Apelamos para a grandeza do povo cearense e muito confiamos que a sua generosidade se faça admirar neste cometimento que será a maior das glórias para o Ceará que, segundo reconhece toda a imprensa do Sul e do Norte, é a primeira província abolicionista do Brasil. Aceitamos com todo prazer e reconhecimento qualquer óbulo, que registraremos com a maior satisfação em homenagem ao nome cearense. A subscrição é de todos e só não contribuirá o desgraçado cuja sorte é ser insensível a todo sentido bom e humanitário em favor de uma idéia que, na frase do Cearense, não conta um só inimigo.” (Raimundo Girão, 1984) Diante do desejo de emancipação coletiva de todos os escravos, foi marcada a data de 1º de janeiro de 1883 para a grande solenidade.
A lista foi aberta pelo jornal com 200$000, o Clube dos Libertos assina 100$000, Geminiano Maia, futuro Barão de Camocim, 50$000, José Barbosa, Domingos Bento de Abreu, Vitoriano A. Borges, Candido Maia e Sebastião Mestrinho 10$000 cada um. E a lista cresceu. A população do Acarape contribuiu com 300$000. As conferências de José do patrocínio renderam 260$000.

9.1 A celebração da Alforria
Tudo foi meticulosamente preparado para o grande dia. A Villa do Acarape estava em festa, as ruas enfeitadas de bandeirinhas coloridas, arcos ornamentais confeccionadas com folhas verdes de palmeiras e coqueiros enfeitavam a entrada da Praça da Matriz, as sacadas dos prédios estavam enfeitadas para a grande festa. Vieram pessoas de todos os sítios e povoados. Todos esperavam ansiosos a grande comitiva composta pelo Conselheiro José Liberato Barroso, General Tibúrcio Ferreira de Souza, Padre José Silveira Guerra, Justiniano de Serpa, José Carlos do Patrocínio, João Cordeiro da Costa, Maria Tomásia, Almino Álvares Affonso além das esposas e outras personalidades.
Essa comitiva saiu de Fortaleza às sete horas da manhã nos vagões de trem puxados pela locomotiva a vapor denominada Sinimbu. Chegaram às dez horas. Eram esperados na estação localizada no distrito de Cala Boca, (atualmente Acarape), por uma ilustre comitiva, com cavalos, carros de boi para vencer o trajeto de três quilômetros. Foram recebidos com foguetórios e muita alegria pela população que se postava na praça.
Seguiu-se a solenidade de alforria num salão fronteiriço à Praça da Matriz, local onde posteriormente foi erguida Escola Pe. Saraiva Leão. A cadeira da presidência foi oferecida ao General Tibúrcio Ferreira de Sousa que por sua vez ofereceu ao Conselheiro José Liberato Barroso que presidiu a sessão. A multidão aplaudia os oradores que se sucediam no decorrer da sessão. José do Patrocínio no seu discurso inflamado exclama: “Para se conhecer a grandeza desta festa, basta vermos à cabeceira desta mesa a representação do parlamento, na pessoa do excelentíssimo Conselheiro Liberato Barroso –o Parlamento é a idéia. A sua direita está a espada vencedora- o exército brasileiro representado na pessoa do insigne general Antonio Tibúrcio Ferreira de Souza. À sua esquerda a igreja católica, que convence das verdades eternas, representada condignamente, pelo reverendíssimo Padre Silveira Guerra. Temos, portanto, aqui senhores, três coisas distintas: a idéia que ilumina, a espada que vence e o sacerdote que convence.” ( Raimundo Girão, 1984)
Em seguida se pronuncia Justiniano de Serpa: “Estamos em plena Canaã da Liberdade!” Na seqüência vem Almino Affonso: “Nenhum homem terá direito de propriedade sobre outro.” Nessa ocasião os proprietários de escravos entregaram as cartas de alforrias aos escravos, dentre eles o Coronel Francisco Benvindo de Vasconcelos cujo desvelo pela causa abolicionista assim se expressou: “A maior mancha de minha vida foi ter sido senhor de escravo”.
A vibração dos oradores e da população ali presentes prolongou-se enquanto durou a solenidade de alforria dos 116 escravos. No banquete servido às duas horas na residência do senhor Silva Matos, mais discursos, declamações e muitos brindes.
Eis o registro de alguns pela imprensa da época: do General Tibúrcio: “Á benemérita e invencível Sociedade Cearense Libertadora, que iniciou na Província e elevou ao mais esplêndido fastígio, o movimento abolicionista.” Do ilustre e talentoso vigário Padre Luiz Bezerra da Rocha: ”Ao generoso povo libertário da capital, representado dignamente na soleníssima festa da liberdade pelos convivas presentes”.
À tarde a comitiva retorna para Fortaleza, o povo aguardava ansioso na Estação Ferroviária para aclamá-la e levá-la à redação do Jornal Libertador, onde as manifestações se prolongaram até mais de meia-noite. Em 23 de janeiro de 1883, a Câmara Municipal enviou um telegrama a D. Pedro II comunicando a libertação dos escravos, recebendo em 11 de abril do mesmo ano resposta solidária ao ato heróico.
O ato libertário da Villa do Acarape, com a presença de José do Patrocínio, o Tigre da Abolição, teve uma repercussão enorme, na verdade os elos das correntes romperam-se. Joaquim Nabuco, em carta da Inglaterra assim se expressa, segundo Affonso Almino (2000): “O Ceará é maravilhoso. Parece incrível que essa província faça parte do Império. Acarape é mais do que um farol para todo país: é o começo de uma pátria Livre.” Raul Pompéia, o grande romancista derrama-se de louvores: “O Acarape começa. Vai nascer o futuro.”

Teresinha de Lisiê Freire de Sousa- Secretária de Cultura e Turismo

Bibliografia consultada
AFFONSO , Almino- A abolição antes da Lei Àurea-Folha de São Paulo , 7 de maio de 2000.
ARARIPE,J. C Alencar –A pena de ouro da Abolição
CONRAD, Robert. Os últimos anos de escravatura no Brasil- 1850-1888
FERREIRA, Maria Luzirene Celestino- Cruzando o Atlântico: ecos da abolição dos escravos no Ceará ( Tese de Mestrado)
FIABANI, A. Mata, palhoça e pilão: quilombo da escravidão às comunidades remanescentes. ( 1532-2004) São Paulo -Expressão Popular
GIRÃO, Raimundo A abolição no Ceará Comemorativa do 1° Centenário da extinção da Escravatura 1984
GIRÃO, Raimundo. A Abolição no Ceará. 4ª edição. Prefeitura Municipal de Maracanaú, Fortaleza, 1988
Jornal do Senado –Uma Reconstituição Histórica 14 de maio de 1888 (internet)
O Cearense, 29 de maio de 1884 Notícias sobre a Abolição dos Escravos no Ceará
Revista Instituto do Ceará – www.revistadoceara.org.br
ROSA, M.V. R Espinho: a desconstrução da racionalização negra da escravidão. Thesaurus 2004
SILVA, Alberto de Oliveira. O Declínio da Escravidão no Ceará. Recife, 1988. Dissertação de Mestrado.
SOUZA, Simone. História do Brasil. 2ª Ed. Fortaleza, Fundação Demócrito Rocha

3 comentários:

  1. Respostas
    1. só gostaria que o site do museu histórico retificasse o nome da autora da dissertação sobre a repercussão da abolição do ceará na corte imperial, que é LUSIRENE CELESTINO FRANÇA FERREIRA e não "MARIA LUZIRENE".

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