A EMANCIPAÇÃO DA CAPITAL DO CEARÁ -24 DE MAIO DE 1883
Jantar dos brazileiros em Londres -9 de junho de 1883
Alguns membros da pequena Colonia Brazileira de Londres reuniram-se no dia 9 de lunho em Qeen Anne' s Mansions, em Westminster, para commemorar a emancipação no município da cidade de Fortaleza. O jantar não teve senão caracter patriótico e Brazileiro, sendo de facto uma acclamação do nome da província que, primeira de todas, procurou tornar o seu sólo livre, por brazileiros ausentes do seu paiz. A presença de diversos representantes das Repúblicas Américanas deu à reunião o alcance de uma manifestação Americana a favor da liberdade, da paz, e do progresso de todo continente.
O Sr. Joaquim Nabuco que presidio, propoz o primeiro brinde ao Ceará. Antes de fazê-lo, leu as seguintes felicitações, uma da Sociedade Abolicionista Hespanhola, e outra do veterano Abolicionista Francez, o Sr. Victor Schoelcher, com cujo nome está para sempre associado ao decreto do Governo Provissorio de 1848, que abolio a escravidão nas Colonias Francezas.
Este telegramma da Sociedade Abolicionista de Madrid:
A Sociedade Abolicionista da Hespanha associa-se cordialmente á festa desta noite da província do Ceará.
Ao propor o brinde ao Verá o Sr. Joaquim Nabuco disse:
Meus Senhores, - O caracter desta reunião é tal que ainda mesmo as pessoas mais suspeitosas a respeito de tudo que se refere á escravidão entere nós, não poderão desvirtuá-lo. Não é uma reunião partidária , é uma reunião nacional. Estamos hoje aqui unidos por um único sentimento: o amor da pátria, o desejo de vê-la quanto antes livre da escravidão. Esta festa no estrangeiro tem o mesmo caracter da emancipação no Ceará, isto é, o da unanimidade e expontaneidade. O facto, que commemoramos, o de haver um districto de solo livre no Brazil, póde parecer insignificante visto tão de perto, ou por estrangeiros; mas de facto é o começo de uma nova patria, e ha de ter um lugar proeminente em nossa história, porque pelo contacto e pelo prestígio da Liberdade essa primeira area e população livre ha de alargar-se até abranger o paiz.
A emancipação no Ceará tem sido obra de todos nós, e, para ver-se quão profundamente essa febre, essa reacção moral de Liberdade actua nas camadas populares, basta dizer que os resultados de hoje são o fructo da resistencia á exportação dos escravos da província de que os jangadeiros do oceano foram o instrumento. Elles crearam em nossa historia uma legenda, que se uma revolução moral pudesse ser comparada a uma transformação política faria lembrar a dos pescadores da Galiléia.
Aqui estão presentes diversas pessoas, que bem representam a sympathia de tda a Amereica pela causa, seja-me lícito agradecer-lhes essa honra que nos fazem de vermos aqui representados, a República Argentina, nossa alliadanos campos de batalha doParaguay, e que tanto augmenta de immigração; o Chile, cujo crescimento normal pela Liberdade nos inspira o mais cordial interesse; os Estados Unidos que mesmo essa grande democracia, a qual teve desde o seu começo como Washington, Jefferson e Hamilton para representa-la, só podem datar a sua verdadeira Liberdade do dia, em que Lincoln assignou a emancipação total dos escravos.
Antes de concluir, não deixarei de externar um pensamento , que me ocorre por estarmos aqui tão perto, quasi á sombra da abbadia de Westminster. Fui tavez o unico estrangeiro da raça Latina, que teve a honra de acompanhar o cortejo mortuario de Charles Darwin. Não posso esquecer que ha quasi meio século deixando o Brazil elle escreveu estas palavras: - "Deixo agora as praias do Brazil . Eu agradeço a Deus, e nunca mais hei de tornar a visitar um paiz de escravos." - O naturalista sentia-se fortemente attrahido pelo paiz, mas o homem era repellido pelo escravidão! Se elle pudesse ter ter conhecimento dessa nossa reunião, e se soubesse o que ella representa, veria que, pela mesma evolução da qual elle descobrio as leis, o Brazil transformou-se desde então de um povo de senhores de escravos, a um povo de dez milhões de homens livres. A escravidão ainda existe , mas a nação divorciou-se della. O que era interesse de todos, tornou-se monopolio de poucos, e factos como o do Ceará, hão de apressar-lhe a queda. o que falta ao Brazil para conseguil-o é confiança no trabalho livre e no poder organico da Liberdade: porque desde que essa resolução apparecer e elle queimar os navios aprodecidos, em que a escravidão veio da Africa, ha de achar-se, como Cortez, na posse de um Novo Mundo de incommensuravel grandeza e inexgotavel opulencia. A Provincia do Ceará, e a sua gloriosa iniciativa.
sábado, 3 de setembro de 2011
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Da forma e da figura da moeda
Quando os homens inicialmente começaram a comerciar e a comprar mercadorias e bens por meio da moeda, não havia nela ainda nenhuma impressão de figura ou imagem: dava-se apenas uma porção de cobre ou de prata em troca de comida e bebida, porção que se media por peso. Mas era coisa fastidiosa e difícil ter que recorrer e ir a balança tão frequentemente, e, ainda, tendo-se o peso como medida, não se podia equiparar com precisão a moeda às mercadorias, nem o vendedor, em diversas circunstâncias, podia saber a natureza do metal do qual a moeda era composta ou o título da sua mistura.Por isso, foi estabelecido pelos sábios daqueles tempos, prudente e sabiamente, que as peças monetárias fossem feitas de certa matéria e tivessem determinado peso, e que nelas se imprimisse uma figura que atestasse a todos, de maneira clara, a qualidade da matéria e a exatidão do peso, a fim de que, eliminadas as suspeitas, o valor das moedas fosse rapidamente conhecido sem dúvidas ou delongas. E, que tal impressão na moeda fosse instituida em sinal da veracidade da matéria e do peso, o demonstraram claramente os antigos nomes das moedas reconhecíveis por suas impressões e figuras, assim como ocorre om a libra, o soldo, o drenário, o óbulo, o asse, a sêxtupla, os denários, os grãos e semelhantes, que são nomes próprios dos pesos das moedas, como diz Cassiodoro. Assim, siclo é nome de moeda e é também o nome do peso, como aparece no Gênesis. Os outros nomes de moedas são nomes impróprios, acidentais ou denominações derivadas do lugar, da figura, do fabricante ou de outra coisa semelhante.
As proções de moeda, que são denominadas propriamente peças monetárias, devem ser de forma e quantidade aptas para ser manejadas e contadas, de matéria divisível e suficientemente maleável para receber e conservar duradouramente a impressão. Vê-se, então, por que nem todas as coisas preciosas são próprias para se tornarem peças monetárias: pedras preciosas, pimentas, vidros e outras coisas semelhantes, com efeito, não são, por suas propriedades naturais, adequadas para isso, mas somente o ouro, a prata e o cobre, como referido acima.
Texto Extraído do livro:Pequeno Tratado da primeira invenção das moedas (1355) Tradução Marzia Terenzi Vicentini.
As proções de moeda, que são denominadas propriamente peças monetárias, devem ser de forma e quantidade aptas para ser manejadas e contadas, de matéria divisível e suficientemente maleável para receber e conservar duradouramente a impressão. Vê-se, então, por que nem todas as coisas preciosas são próprias para se tornarem peças monetárias: pedras preciosas, pimentas, vidros e outras coisas semelhantes, com efeito, não são, por suas propriedades naturais, adequadas para isso, mas somente o ouro, a prata e o cobre, como referido acima.
Texto Extraído do livro:Pequeno Tratado da primeira invenção das moedas (1355) Tradução Marzia Terenzi Vicentini.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Por que a moeda foi inventada
Quando dividebat Altissimus, gentes, quando separabat filios Adam, constituit terminos populorum juxta numerum filiorum etc.
Quano o Altissímo e soberano Deus onipotente dividiu as gentes e separou os filhos de Adão, ele delimitou os territórios de cada povo segundo o número de filhos de Israel; daí em diante os homens se multiplicaram sobre a terra e foi necessário dividir erepartir novamente suas posses.
Disso resultou que um deles passou a possuir algo a mais do que sua necessidade comportava, enquanto outro tinha dessa mesma coisa muito pouco ou nada; mas, por outro lado , este segundo tinha fartura ou lhe sobrava outra coisa que ao primeiro faltava. Assim, por exemplo, podia ocorrer que um pastor chegasse a ter ovelhas ou outro gado em profusão, mas precisasse de trigo e de pão; enquanto um lavrador, ao contrário, tivesse pão suficiente, mas lhe faltava gado.
Uam região, por sua vez, tinha algo em superabundância que a uma outra fazia falta.. Por essa razão, portanto, os homens começaram a comerciar e a trocar riquezas, sem moeda, dando um deles uma ovelha a outro trigo e, o outro, seu trabalho em troca de pão e de lã. E assim eles faziam com todas as outras coisas. Acostumaram-se , então, a proceder dessa maneira por muitos anos, em várias cidades e países, como contam Justino, o historiador, e outros autores antigos.
Porém, como surgissem nessa forma de permuta e de troca das coisas muitas dificuldades e controvérsias, os homens, engenhosos, descobriram uma maneira mais ágil de fazê-lo, isto é, fazer uso da moeda, a qual foi instrumento para permutar e comerciar entre si suas riquezas naturais. E como unicamente estas, por si próprias, satisfazem diretamente as necessidades humanas, todo odinheiro é dito riqueza artificial e não poderia ser de outro modo, podendo acontecer que alguém que as tenha em abundancia possa morrer de fome ao lado delas.
É o que argumenta o filósofo Aristotéles, citando o exemplo de um rei ganancioso, qu Ovídio, em seu livro Metamorfoses, chama Midas, o qual rezou e rogou aos deuses que tudo que ele tocasse virasse ouro. os deuses outorgaram-lhe esse desejo louco e, desse modo, ele morreu de fome no meio do seu ouro, como representaram os poetas. Com dinheiro, com efeito, não se supera de modo imediato a indigência da vida humana, sendo ele um instrumento artificial, escoberto para permutar mais facilmente as riquezas naturais.
Fica claro, então, sem necessidade de outras provas, que a moeda é muito útil e oportuna para o bem da comunidade pública, alás muito necessária, como demonstra Aristóteles, no seu quinto livro de Ética. (...)
De que material deve ser a moeda
Já que a moeda é o instrumento que serve para permutar riquezas naturais entre os homens, foi necessário que tal instrumento fosse apto para tanto, ou seja, fácil de apalpar e manejar rapidamente, leve de carregar e tal que por pequena porção dele possam ser compradas e trocadas riquezas naturais em maior quantidade, juntamente com várias outras condições que serão examinadas a seguir.
Foi conveniente, portanto, que a moeda fosse feita de matéria preciosa e pouco volumosa, assim como é o ouro; mas de matéria da qual o país tenha suficiente abundância. E quando o ouro não é suficiente, faz-se moeda de prata. Quando, então, esses dois metais não forem suficientes ou não se encontrem em abundância adequada, deve-se fazer moeda mesclada ou simples de ouro metal puro. Antigamente fazia-se essa moeda de bronze ou de cobre, assim como conta Ovidio, no primeiro livro de Os fastos, ode ele diz:
Aera dabant olim, melius nunc omen in auro est,
Victaque concessit prisca moneta novae
O que quer dizer, em vernáculo, que os antigos, em tempos longínquos, usavam suas moedas de cobre, mas hoje em dia, e melhor, os modernos negociam com as de ouro. E assim, superada, a moeda antiga cedeu lugar a nova.
(...) E, como ensina Cassiodoro, os dois primeiros homens que se diz terem achado esses metais foram Éaco, que achou o ouro, e Indo, rei da Cítia, a prata. Com ação digna de grande louvor, ele os entregaram aos homens para seu uso e, desde então, foram considerados divinos por seus povos. Por essa razão, não se deve permitir que grande quantidade desses metais seja utilizada para outros fins se o que resta não for suficiente para fabricar moeda.
Sabendo e bem considerando, outrora, tal coisa, Teodorico , rei da Itália, ordenou que o ouro e a prata, que segundo o costume dos antigos pagãos, estavam escondidos nos sepulcros, junto dos mortos, fossem dali retirados e trazidos para com eles fabricar moeda, para o uso e utilidade pública, declarando ser uma espécie de crime deplorável deixar inultimente nos sepulcros dos mortos algo que poderia servir de ajuda e sustento dos vivos.
Texto extaído do Livro- Pequeno tratado da primeira invenção das moedas ( 1355) Tradução de Maria Terenzi Vicentini-
Quando dividebat Altissimus, gentes, quando separabat filios Adam, constituit terminos populorum juxta numerum filiorum etc.
Quano o Altissímo e soberano Deus onipotente dividiu as gentes e separou os filhos de Adão, ele delimitou os territórios de cada povo segundo o número de filhos de Israel; daí em diante os homens se multiplicaram sobre a terra e foi necessário dividir erepartir novamente suas posses.
Disso resultou que um deles passou a possuir algo a mais do que sua necessidade comportava, enquanto outro tinha dessa mesma coisa muito pouco ou nada; mas, por outro lado , este segundo tinha fartura ou lhe sobrava outra coisa que ao primeiro faltava. Assim, por exemplo, podia ocorrer que um pastor chegasse a ter ovelhas ou outro gado em profusão, mas precisasse de trigo e de pão; enquanto um lavrador, ao contrário, tivesse pão suficiente, mas lhe faltava gado.
Uam região, por sua vez, tinha algo em superabundância que a uma outra fazia falta.. Por essa razão, portanto, os homens começaram a comerciar e a trocar riquezas, sem moeda, dando um deles uma ovelha a outro trigo e, o outro, seu trabalho em troca de pão e de lã. E assim eles faziam com todas as outras coisas. Acostumaram-se , então, a proceder dessa maneira por muitos anos, em várias cidades e países, como contam Justino, o historiador, e outros autores antigos.
Porém, como surgissem nessa forma de permuta e de troca das coisas muitas dificuldades e controvérsias, os homens, engenhosos, descobriram uma maneira mais ágil de fazê-lo, isto é, fazer uso da moeda, a qual foi instrumento para permutar e comerciar entre si suas riquezas naturais. E como unicamente estas, por si próprias, satisfazem diretamente as necessidades humanas, todo odinheiro é dito riqueza artificial e não poderia ser de outro modo, podendo acontecer que alguém que as tenha em abundancia possa morrer de fome ao lado delas.
É o que argumenta o filósofo Aristotéles, citando o exemplo de um rei ganancioso, qu Ovídio, em seu livro Metamorfoses, chama Midas, o qual rezou e rogou aos deuses que tudo que ele tocasse virasse ouro. os deuses outorgaram-lhe esse desejo louco e, desse modo, ele morreu de fome no meio do seu ouro, como representaram os poetas. Com dinheiro, com efeito, não se supera de modo imediato a indigência da vida humana, sendo ele um instrumento artificial, escoberto para permutar mais facilmente as riquezas naturais.
Fica claro, então, sem necessidade de outras provas, que a moeda é muito útil e oportuna para o bem da comunidade pública, alás muito necessária, como demonstra Aristóteles, no seu quinto livro de Ética. (...)
De que material deve ser a moeda
Já que a moeda é o instrumento que serve para permutar riquezas naturais entre os homens, foi necessário que tal instrumento fosse apto para tanto, ou seja, fácil de apalpar e manejar rapidamente, leve de carregar e tal que por pequena porção dele possam ser compradas e trocadas riquezas naturais em maior quantidade, juntamente com várias outras condições que serão examinadas a seguir.
Foi conveniente, portanto, que a moeda fosse feita de matéria preciosa e pouco volumosa, assim como é o ouro; mas de matéria da qual o país tenha suficiente abundância. E quando o ouro não é suficiente, faz-se moeda de prata. Quando, então, esses dois metais não forem suficientes ou não se encontrem em abundância adequada, deve-se fazer moeda mesclada ou simples de ouro metal puro. Antigamente fazia-se essa moeda de bronze ou de cobre, assim como conta Ovidio, no primeiro livro de Os fastos, ode ele diz:
Aera dabant olim, melius nunc omen in auro est,
Victaque concessit prisca moneta novae
O que quer dizer, em vernáculo, que os antigos, em tempos longínquos, usavam suas moedas de cobre, mas hoje em dia, e melhor, os modernos negociam com as de ouro. E assim, superada, a moeda antiga cedeu lugar a nova.
(...) E, como ensina Cassiodoro, os dois primeiros homens que se diz terem achado esses metais foram Éaco, que achou o ouro, e Indo, rei da Cítia, a prata. Com ação digna de grande louvor, ele os entregaram aos homens para seu uso e, desde então, foram considerados divinos por seus povos. Por essa razão, não se deve permitir que grande quantidade desses metais seja utilizada para outros fins se o que resta não for suficiente para fabricar moeda.
Sabendo e bem considerando, outrora, tal coisa, Teodorico , rei da Itália, ordenou que o ouro e a prata, que segundo o costume dos antigos pagãos, estavam escondidos nos sepulcros, junto dos mortos, fossem dali retirados e trazidos para com eles fabricar moeda, para o uso e utilidade pública, declarando ser uma espécie de crime deplorável deixar inultimente nos sepulcros dos mortos algo que poderia servir de ajuda e sustento dos vivos.
Texto extaído do Livro- Pequeno tratado da primeira invenção das moedas ( 1355) Tradução de Maria Terenzi Vicentini-
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Um Homem de bem e um dos Heróis da Abolição
Ano de 1877.
A maior e mais comentada das nossas grandes secas comburia os sertões do Nordeste.
E Fraga-JOAQUIM AGOSTINHO FRAGA- nascido na serra de Portalegre, da então província do Rio Grande do Norte, em 28 de agosto de 1856, foi atingido em cheio pelo flagelo, o tremendo flagelo climatérico, de consequências desoladoras.
Não bastava-lhe, a ele, contando apenas com viúva e irmãos menores, vinha agora, a seca de 77, uma infelicidade a mais agravar-lhe a situação difícil e precoce de chefe da própria família do seu genitor, prematuramente falecido.
Filho era de Joaquim Agostinho Fraga de respeitável casal de honrados sertanejos: seu pai, Desidério Benigno Fraga, e sua mãe, Donata Alexandrina da Conceição.
Compelido pela terrível calamidade pública, teve ele de emigrar.
E como que por uma predestinação pública veio ter- e aí fixar residência- veio ter no antigo Acarape, atualmente cidade de Redenção, depois da gloriosa jornada abolicionista negra, solenemente triunfante em 1º de janeiro de 1833, primeira etapa da emancipação total em todo território do Brasil, em 13 de maio de 1888.
Foi, precisamente, o emigrado norte-rio-grandense de ontem com poucos outros companheiros, decididos e abnegados, um dos heróis da memorável campanha abolicionista no Ceará.
Acarape, naquela data, abriu caminho ao Ceará, e êste, a gloriosa ex-província, denominada pela vitória emancipacionista de Terra da Luz, logo no ano seguinte-em 25 de Março de 1884- libertou todos os seus escravos, quer dizer os existentes em todo o seu território. E assim, o nosso Ceará, por sua vez, vinha a abrir o caminho da Abolição do cativeiro negro em todo o Brasil, que se verificou quatro anos mais tarde, em mês e dias, ou seja-em 13 de Maio de 1888.
Temos, portanto, três datas fundamentais, verdadeiramente gloriosas e inconfundíveis, na história da emancipação da raça negra em nossa pátria: 1° de Janeiro de 1883, a data do Acarape; 25 de março de 1884,a data do Ceará-13 de maio de 1888, a data do Brasil.
O simples emigrado potiguar da sêca de 1877 pasando a viver e atuar em novo e estranho meio, o antigo Acarape, identificou-se logo, com seus destinos, com sua vida familiar e pública, hábitos e costumes simples.
Dadas as suas qualidades morais que de logo a todos se impunham- homem reservado e criterioso, homem da família e do trabalho, ativo e prudente, não tardou que viesse Fraga a ser aproveitado como empregado no prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité,cujas obras se executavam àquele tempo, e empregado foi nesses trabalhos apenas até a conclusão do trecho Acarape à povoação de Canoa, depois Vila de Aracoiaba e mais tarde cidade de Aracoiaba.
Joaquim Agostinho Fraga serviu, posteriormente, e por algum tempo, em Ofícios de Justiça e empregado foi, também da Fazenda Pública do Estado.
Nutria sempre viva simpatia pelos negócios judiciários , e de modo especial, por assuntos de divisão e demarcação de terras, e voltou Fraga para esses negócios toda sua atividade: primeiro tirou um Carta de Solicitador perante o então Tribunal da Relação do Estado em dias do ano de 1892 em pleno alvorecer da Repáblica, recentemente proclamada (madrugada de 15 de novembro de 1889, consequência imediata da Abolição em todo Brasil).
Cinco anos decorridos, ou seja, em 1897, a Joaquim Agostinho Fraga conferiu o colendo Tribunal da Relação a Provisão para advogar em causas cíveis, comerciais e criminais.
O Brasil forjado pelo estômago
O Brasil forjado pelo estômago
História / As culturas dos povos brasileiros e peculiaridades regionais criaram nossa identidade cultural -
Por Henrique Soares Carneiro - professor do Departamento de História da USP
Feijoada, vatapá, tutu de feijão... conhecemos vários pratos chamados típicos brasileiros. Mas é possível dizer que o Brasil é uma unidade no que se refere à alimentação? Podemos falar em identidade nacional alimentar, ou então uma culinária brasileira? Durante o século XX a definição de uma culinária "nacional" acompanhou vários aspectos da própria constituição da nação, a ponto de poder se falar no mito de uma formação mestiça que integrava as supostas "três raças" da história colonial brasileira, cada uma com sua contribuição para a cultura e, portanto, também para a culinária, escondendo as desigualdades que vieram com a escravidão. Essa idéia das três raízes também homogeneizou indígenas e africanos, reduzindo vasta riqueza cultural a um mesmo denominador. Os antropólogos Gilberto Freyre e Luis da Câmara Cascudo despontaram como autores emblemáticos na idealização de quais seriam as "contribuições" de cada "raça" ao complexo alimentar brasileiro. Trataram da comida especialmente em História da Alimentação no Brasil (1967), de Cascudo, e Casa Grande e Senzala (1933) e Açúcar (1937) de Freyre, que correspondem aos trabalhos mais instigantes sobre os diversos aspectos da alimentação no Brasil. Essa visão no entanto, tem sido criticada, porque segundo o sociólogo Carlos Alberto Dória no Livro a Formação da Culinária Brasileira, " equilibra os componentes do mito moderno- o índio, o negro e o branco-suprimindo a hierarquia real que houve entre "ele". Os países coloniais como o nosso, teriam maior dificuldade em construir uma representação da cultura nacional com símbolos culinários que representassem todas as classes sociais. Assim, após a Abolição e a República, idealizou-se a feijoada como prato principal emblemático exatamente porque simbolizava uma predilação das camadas populares, mesmo que sua origem não viesse da comida típica dos escravos , alimentados sobretudo pela farinha de mandioca e pelo fubá e angu de milho ( embora não existisse milho na África). Cascudo considerou que os indígenas haviam tido uma contribuição maior à "dieta nacional" do que os negros. Os primeiros seriam responsáveis pela "base da nutrição popular, os complexos alimentares da mandioca, do milho, da batata e do feijão", enquanto dos africanos a maior contribuição teria sido a banana, " em volume, difusão e uso", além do dendê, inhame, quiabo, jiló e melancia. Aos portugueses caberia, além da maioria dos produtos animais e vegetais, o sal e o açúcar, também a maioria das técnicas de preparo, tais como o uso do forno, da fritura, massas, ovos e laticínios, permitindo uma assimilação híbrida de novos produtos ao misturar leite, ovos, açúcar com milho, a mandioca ou a banana, por exemplo. Segundo Carlos Alberto Dória, a falta de liberdade foi o principal limitador da contribuição africana à alimentação no Brasil. Eles tiveram pouca liberdade de criação culinária. Vários autores buscaram situar as diferenças regionais no Brasil, especialmente aquelas que decorrem de fatores ambientais e geográficos, conferindo assim características próprias à economia e à agricultura de cada uma dessas macrorregiões. A cada uma delas corresponderia uma culinária mais específica. Gilberto Freyre divide as culinárias nacionais da seguinte forma: no Norte ameríndio, que utilizava a tartaruga e os peixes de rio; a colonial nordestina açucareira, do coco, da mandioca e do peixe e frutos do mar ( pitu, sururu, lagosta0; colonial baiana, do dendê das moquecas, carurus, vatapás e mingaus, a colonial mineira do porco, do doce de leita, do requeijão e da sopa de legumes; e, finalmente, uma açoriana-brasileira, no Sul, como a carne fresca e influências espanholas. Outros autores propuseram variações nesse desenho de regiões que englobam a Amazônia, a Zona da Mata, o Sertão, o Centro e o Sul. Numa descrição mais simples estariam o complexo litorâneo (mandioca, peixe, pirão, tapioca, mingaus, moquecas, cauim) e o complexo sertanejo ( milho, porco, angu, fubá, canjica, cuscuz, pipoca, jacuba). O charque, o feijão-tropeiro, o arroz de carreteiro e a poçoca de pilão seriam os pratos resultantes de uma penetração do bandeirante nos sertões apoiada no binômio milho e feijão, a ponto do historiador Sérgio Buarque de Holanda referir-se a uma "civilização do milho" em sua obra Caminhos e Fronteiras. Essa seria uma cultura culinária em que predominaria o "seco" em vez de "molhado" da culinária litorânea da mandioca. Para Dória, mais do que as divisões em regiões sociopolíticas, são os ingredientes os grandes protagonistas que delineiam os territórios conforme uma presença acentuada de um ou de outro produto na dieta mais tradicional do povo. Na Amazônia , prevalecem a mandioca e seus derivados ( farinhas diversas e tucupi), os peixes de rio, as frutas e outros produtos da floresta. Na costa do Ceará ao Espírito Santo , usam-se os peixes e os frutos do mar e o leite de coco. No Recôncavo Baiano destacam-se o azeite de dendê e a "cozinha de santo". No Sudeste e parte do Centro-Oeste, predomina a "culinária caipira", com milho, o porco, o frango e o legumes da hortas com grande influência das técnicas portuguesas. E no Brasil Meridional, além do milho, do cuscuz e dos preparados com vísceras animais, encontram-se os nichos específicos do pequi no Cerrado e do mate e do pinhão a partir do Paraná e do Pantanal. A partir do século XX, no entanto, a urbanização e a industrialização, e as técnicas de conservação (latas, frigoríficos etc.), inseriram o Brasil no contexto de um modelo alimentar cada vez mais internacionalizado e industrializado pela difusão de aparatos como geladeiras,fogões etc., fazendo com que na análise de João Luiz Máximo da Silva no livro Cozinha Modelo: O impacto do gás na casa paulistana, a cozinha fosse o local da casa mais alterado pela Revolução Industrial. Isso trouxe profundas alterações sociológicas no modo de comer, tanto nos próprios produtos e modo de preparo quanto nos horários, locais e companhias das refeições.
A partir do século XX, além da desnutrição, surge também um fenômeno chamado de "gastronomia" pelo sociólogo francês Caude Fischler, que consiste no aumento da ansiedade e na perda da " competência alimentar". O crescimento de uma dieta hipercalórica, com excessos de gorduras e carboidratos e a epidemia da obesidade e de doenças cardiovasculares, é a face mais visível de uma perda do sentimento de equilíbrio e temperança.
A alimentação no Brasil também se transforma no século XX com a chegada em massa de imigrantes europeus e asiáticos, e inclusão dos seus pratos no cardápio brasileiro. O resultado é o repertório amplo de regras frouxas de combinação. Mas, como diz Dória, " a desconstrução e a reconstrução são as regras da gastronomia ultramoderna e, de repente, se está diante de uma atualidade inesperada.
História / As culturas dos povos brasileiros e peculiaridades regionais criaram nossa identidade cultural -
Por Henrique Soares Carneiro - professor do Departamento de História da USP
Feijoada, vatapá, tutu de feijão... conhecemos vários pratos chamados típicos brasileiros. Mas é possível dizer que o Brasil é uma unidade no que se refere à alimentação? Podemos falar em identidade nacional alimentar, ou então uma culinária brasileira? Durante o século XX a definição de uma culinária "nacional" acompanhou vários aspectos da própria constituição da nação, a ponto de poder se falar no mito de uma formação mestiça que integrava as supostas "três raças" da história colonial brasileira, cada uma com sua contribuição para a cultura e, portanto, também para a culinária, escondendo as desigualdades que vieram com a escravidão. Essa idéia das três raízes também homogeneizou indígenas e africanos, reduzindo vasta riqueza cultural a um mesmo denominador. Os antropólogos Gilberto Freyre e Luis da Câmara Cascudo despontaram como autores emblemáticos na idealização de quais seriam as "contribuições" de cada "raça" ao complexo alimentar brasileiro. Trataram da comida especialmente em História da Alimentação no Brasil (1967), de Cascudo, e Casa Grande e Senzala (1933) e Açúcar (1937) de Freyre, que correspondem aos trabalhos mais instigantes sobre os diversos aspectos da alimentação no Brasil. Essa visão no entanto, tem sido criticada, porque segundo o sociólogo Carlos Alberto Dória no Livro a Formação da Culinária Brasileira, " equilibra os componentes do mito moderno- o índio, o negro e o branco-suprimindo a hierarquia real que houve entre "ele". Os países coloniais como o nosso, teriam maior dificuldade em construir uma representação da cultura nacional com símbolos culinários que representassem todas as classes sociais. Assim, após a Abolição e a República, idealizou-se a feijoada como prato principal emblemático exatamente porque simbolizava uma predilação das camadas populares, mesmo que sua origem não viesse da comida típica dos escravos , alimentados sobretudo pela farinha de mandioca e pelo fubá e angu de milho ( embora não existisse milho na África). Cascudo considerou que os indígenas haviam tido uma contribuição maior à "dieta nacional" do que os negros. Os primeiros seriam responsáveis pela "base da nutrição popular, os complexos alimentares da mandioca, do milho, da batata e do feijão", enquanto dos africanos a maior contribuição teria sido a banana, " em volume, difusão e uso", além do dendê, inhame, quiabo, jiló e melancia. Aos portugueses caberia, além da maioria dos produtos animais e vegetais, o sal e o açúcar, também a maioria das técnicas de preparo, tais como o uso do forno, da fritura, massas, ovos e laticínios, permitindo uma assimilação híbrida de novos produtos ao misturar leite, ovos, açúcar com milho, a mandioca ou a banana, por exemplo. Segundo Carlos Alberto Dória, a falta de liberdade foi o principal limitador da contribuição africana à alimentação no Brasil. Eles tiveram pouca liberdade de criação culinária. Vários autores buscaram situar as diferenças regionais no Brasil, especialmente aquelas que decorrem de fatores ambientais e geográficos, conferindo assim características próprias à economia e à agricultura de cada uma dessas macrorregiões. A cada uma delas corresponderia uma culinária mais específica. Gilberto Freyre divide as culinárias nacionais da seguinte forma: no Norte ameríndio, que utilizava a tartaruga e os peixes de rio; a colonial nordestina açucareira, do coco, da mandioca e do peixe e frutos do mar ( pitu, sururu, lagosta0; colonial baiana, do dendê das moquecas, carurus, vatapás e mingaus, a colonial mineira do porco, do doce de leita, do requeijão e da sopa de legumes; e, finalmente, uma açoriana-brasileira, no Sul, como a carne fresca e influências espanholas. Outros autores propuseram variações nesse desenho de regiões que englobam a Amazônia, a Zona da Mata, o Sertão, o Centro e o Sul. Numa descrição mais simples estariam o complexo litorâneo (mandioca, peixe, pirão, tapioca, mingaus, moquecas, cauim) e o complexo sertanejo ( milho, porco, angu, fubá, canjica, cuscuz, pipoca, jacuba). O charque, o feijão-tropeiro, o arroz de carreteiro e a poçoca de pilão seriam os pratos resultantes de uma penetração do bandeirante nos sertões apoiada no binômio milho e feijão, a ponto do historiador Sérgio Buarque de Holanda referir-se a uma "civilização do milho" em sua obra Caminhos e Fronteiras. Essa seria uma cultura culinária em que predominaria o "seco" em vez de "molhado" da culinária litorânea da mandioca. Para Dória, mais do que as divisões em regiões sociopolíticas, são os ingredientes os grandes protagonistas que delineiam os territórios conforme uma presença acentuada de um ou de outro produto na dieta mais tradicional do povo. Na Amazônia , prevalecem a mandioca e seus derivados ( farinhas diversas e tucupi), os peixes de rio, as frutas e outros produtos da floresta. Na costa do Ceará ao Espírito Santo , usam-se os peixes e os frutos do mar e o leite de coco. No Recôncavo Baiano destacam-se o azeite de dendê e a "cozinha de santo". No Sudeste e parte do Centro-Oeste, predomina a "culinária caipira", com milho, o porco, o frango e o legumes da hortas com grande influência das técnicas portuguesas. E no Brasil Meridional, além do milho, do cuscuz e dos preparados com vísceras animais, encontram-se os nichos específicos do pequi no Cerrado e do mate e do pinhão a partir do Paraná e do Pantanal. A partir do século XX, no entanto, a urbanização e a industrialização, e as técnicas de conservação (latas, frigoríficos etc.), inseriram o Brasil no contexto de um modelo alimentar cada vez mais internacionalizado e industrializado pela difusão de aparatos como geladeiras,fogões etc., fazendo com que na análise de João Luiz Máximo da Silva no livro Cozinha Modelo: O impacto do gás na casa paulistana, a cozinha fosse o local da casa mais alterado pela Revolução Industrial. Isso trouxe profundas alterações sociológicas no modo de comer, tanto nos próprios produtos e modo de preparo quanto nos horários, locais e companhias das refeições.
A partir do século XX, além da desnutrição, surge também um fenômeno chamado de "gastronomia" pelo sociólogo francês Caude Fischler, que consiste no aumento da ansiedade e na perda da " competência alimentar". O crescimento de uma dieta hipercalórica, com excessos de gorduras e carboidratos e a epidemia da obesidade e de doenças cardiovasculares, é a face mais visível de uma perda do sentimento de equilíbrio e temperança.
A alimentação no Brasil também se transforma no século XX com a chegada em massa de imigrantes europeus e asiáticos, e inclusão dos seus pratos no cardápio brasileiro. O resultado é o repertório amplo de regras frouxas de combinação. Mas, como diz Dória, " a desconstrução e a reconstrução são as regras da gastronomia ultramoderna e, de repente, se está diante de uma atualidade inesperada.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
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