segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Um Homem de bem e um dos Heróis da Abolição

Ano de 1877.
A maior e mais comentada das nossas grandes secas comburia os sertões do Nordeste.
E Fraga-JOAQUIM AGOSTINHO FRAGA- nascido na serra de Portalegre, da então província do Rio Grande do Norte, em 28 de agosto de 1856, foi atingido em cheio pelo flagelo, o tremendo flagelo climatérico, de consequências desoladoras.
Não bastava-lhe, a ele, contando apenas com viúva e irmãos menores, vinha agora, a seca de 77, uma infelicidade a mais agravar-lhe a situação difícil e precoce de chefe da própria família do seu genitor, prematuramente falecido.
Filho era de Joaquim Agostinho Fraga de respeitável casal de honrados sertanejos: seu pai, Desidério Benigno Fraga, e sua mãe, Donata Alexandrina da Conceição.
Compelido pela terrível calamidade pública, teve ele de emigrar.
E como que por uma predestinação pública veio ter- e aí fixar residência- veio ter no antigo Acarape, atualmente cidade de Redenção, depois da gloriosa jornada abolicionista negra, solenemente triunfante em 1º de janeiro de 1833, primeira etapa da emancipação total em todo território do Brasil, em 13 de maio de 1888.
Foi, precisamente, o emigrado norte-rio-grandense de ontem com poucos outros companheiros, decididos e abnegados, um dos heróis da memorável campanha abolicionista no Ceará.
Acarape, naquela data, abriu caminho ao Ceará, e êste, a gloriosa ex-província, denominada pela vitória emancipacionista de Terra da Luz, logo no ano seguinte-em 25 de Março de 1884- libertou todos os seus escravos, quer dizer os existentes em todo o seu território. E assim, o nosso Ceará, por sua vez, vinha a abrir o caminho da Abolição do cativeiro negro em todo o Brasil, que se verificou quatro anos mais tarde, em mês e dias, ou seja-em 13 de Maio de 1888.
Temos, portanto, três datas fundamentais, verdadeiramente gloriosas e inconfundíveis, na história da emancipação da raça negra em nossa pátria: 1° de Janeiro de 1883, a data do Acarape; 25 de março de 1884,a data do Ceará-13 de maio de 1888, a data do Brasil.
O simples emigrado potiguar da sêca de 1877 pasando a viver e atuar em novo e estranho meio, o antigo Acarape, identificou-se logo, com seus destinos, com sua vida familiar e pública, hábitos e costumes simples.
Dadas as suas qualidades morais que de logo a todos se impunham- homem reservado e criterioso, homem da família e do trabalho, ativo e prudente, não tardou que viesse Fraga a ser aproveitado como empregado no prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité,cujas obras se executavam àquele tempo, e empregado foi nesses trabalhos apenas até a conclusão do trecho Acarape à povoação de Canoa, depois Vila de Aracoiaba e mais tarde cidade de Aracoiaba.
Joaquim Agostinho Fraga serviu, posteriormente, e por algum tempo, em Ofícios de Justiça e empregado foi, também da Fazenda Pública do Estado.
Nutria sempre viva simpatia pelos negócios judiciários , e de modo especial, por assuntos de divisão e demarcação de terras, e voltou Fraga para esses negócios toda sua atividade: primeiro tirou um Carta de Solicitador perante o então Tribunal da Relação do Estado em dias do ano de 1892 em pleno alvorecer da Repáblica, recentemente proclamada (madrugada de 15 de novembro de 1889, consequência imediata da Abolição em todo Brasil).
Cinco anos decorridos, ou seja, em 1897, a Joaquim Agostinho Fraga conferiu o colendo Tribunal da Relação a Provisão para advogar em causas cíveis, comerciais e criminais.

O Brasil forjado pelo estômago

O Brasil forjado pelo estômago
História / As culturas dos povos brasileiros e peculiaridades regionais criaram nossa identidade cultural -

Por Henrique Soares Carneiro - professor do Departamento de História da USP

Feijoada, vatapá, tutu de feijão... conhecemos vários pratos chamados típicos brasileiros. Mas é possível dizer que o Brasil é uma unidade no que se refere à alimentação? Podemos falar em identidade nacional alimentar, ou então uma culinária brasileira? Durante o século XX a definição de uma culinária "nacional" acompanhou vários aspectos da própria constituição da nação, a ponto de poder se falar no mito de uma formação mestiça que integrava as supostas "três raças" da história colonial brasileira, cada uma com sua contribuição para a cultura e, portanto, também para a culinária, escondendo as desigualdades que vieram com a escravidão. Essa idéia das três raízes também homogeneizou indígenas e africanos, reduzindo vasta riqueza cultural a um mesmo denominador. Os antropólogos Gilberto Freyre e Luis da Câmara Cascudo despontaram como autores emblemáticos na idealização de quais seriam as "contribuições" de cada "raça" ao complexo alimentar brasileiro. Trataram da comida especialmente em História da Alimentação no Brasil (1967), de Cascudo, e Casa Grande e Senzala (1933) e Açúcar (1937) de Freyre, que correspondem aos trabalhos mais instigantes sobre os diversos aspectos da alimentação no Brasil. Essa visão no entanto, tem sido criticada, porque segundo o sociólogo Carlos Alberto Dória no Livro a Formação da Culinária Brasileira, " equilibra os componentes do mito moderno- o índio, o negro e o branco-suprimindo a hierarquia real que houve entre "ele". Os países coloniais como o nosso, teriam maior dificuldade em construir uma representação da cultura nacional com símbolos culinários que representassem todas as classes sociais. Assim, após a Abolição e a República, idealizou-se a feijoada como prato principal emblemático exatamente porque simbolizava uma predilação das camadas populares, mesmo que sua origem não viesse da comida típica dos escravos , alimentados sobretudo pela farinha de mandioca e pelo fubá e angu de milho ( embora não existisse milho na África). Cascudo considerou que os indígenas haviam tido uma contribuição maior à "dieta nacional" do que os negros. Os primeiros seriam responsáveis pela "base da nutrição popular, os complexos alimentares da mandioca, do milho, da batata e do feijão", enquanto dos africanos a maior contribuição teria sido a banana, " em volume, difusão e uso", além do dendê, inhame, quiabo, jiló e melancia. Aos portugueses caberia, além da maioria dos produtos animais e vegetais, o sal e o açúcar, também a maioria das técnicas de preparo, tais como o uso do forno, da fritura, massas, ovos e laticínios, permitindo uma assimilação híbrida de novos produtos ao misturar leite, ovos, açúcar com milho, a mandioca ou a banana, por exemplo. Segundo Carlos Alberto Dória, a falta de liberdade foi o principal limitador da contribuição africana à alimentação no Brasil. Eles tiveram pouca liberdade de criação culinária. Vários autores buscaram situar as diferenças regionais no Brasil, especialmente aquelas que decorrem de fatores ambientais e geográficos, conferindo assim características próprias à economia e à agricultura de cada uma dessas macrorregiões. A cada uma delas corresponderia uma culinária mais específica. Gilberto Freyre divide as culinárias nacionais da seguinte forma: no Norte ameríndio, que utilizava a tartaruga e os peixes de rio; a colonial nordestina açucareira, do coco, da mandioca e do peixe e frutos do mar ( pitu, sururu, lagosta0; colonial baiana, do dendê das moquecas, carurus, vatapás e mingaus, a colonial mineira do porco, do doce de leita, do requeijão e da sopa de legumes; e, finalmente, uma açoriana-brasileira, no Sul, como a carne fresca e influências espanholas. Outros autores propuseram variações nesse desenho de regiões que englobam a Amazônia, a Zona da Mata, o Sertão, o Centro e o Sul. Numa descrição mais simples estariam o complexo litorâneo (mandioca, peixe, pirão, tapioca, mingaus, moquecas, cauim) e o complexo sertanejo ( milho, porco, angu, fubá, canjica, cuscuz, pipoca, jacuba). O charque, o feijão-tropeiro, o arroz de carreteiro e a poçoca de pilão seriam os pratos resultantes de uma penetração do bandeirante nos sertões apoiada no binômio milho e feijão, a ponto do historiador Sérgio Buarque de Holanda referir-se a uma "civilização do milho" em sua obra Caminhos e Fronteiras. Essa seria uma cultura culinária em que predominaria o "seco" em vez de "molhado" da culinária litorânea da mandioca. Para Dória, mais do que as divisões em regiões sociopolíticas, são os ingredientes os grandes protagonistas que delineiam os territórios conforme uma presença acentuada de um ou de outro produto na dieta mais tradicional do povo. Na Amazônia , prevalecem a mandioca e seus derivados ( farinhas diversas e tucupi), os peixes de rio, as frutas e outros produtos da floresta. Na costa do Ceará ao Espírito Santo , usam-se os peixes e os frutos do mar e o leite de coco. No Recôncavo Baiano destacam-se o azeite de dendê e a "cozinha de santo". No Sudeste e parte do Centro-Oeste, predomina a "culinária caipira", com milho, o porco, o frango e o legumes da hortas com grande influência das técnicas portuguesas. E no Brasil Meridional, além do milho, do cuscuz e dos preparados com vísceras animais, encontram-se os nichos específicos do pequi no Cerrado e do mate e do pinhão a partir do Paraná e do Pantanal. A partir do século XX, no entanto, a urbanização e a industrialização, e as técnicas de conservação (latas, frigoríficos etc.), inseriram o Brasil no contexto de um modelo alimentar cada vez mais internacionalizado e industrializado pela difusão de aparatos como geladeiras,fogões etc., fazendo com que na análise de João Luiz Máximo da Silva no livro Cozinha Modelo: O impacto do gás na casa paulistana, a cozinha fosse o local da casa mais alterado pela Revolução Industrial. Isso trouxe profundas alterações sociológicas no modo de comer, tanto nos próprios produtos e modo de preparo quanto nos horários, locais e companhias das refeições.
A partir do século XX, além da desnutrição, surge também um fenômeno chamado de "gastronomia" pelo sociólogo francês Caude Fischler, que consiste no aumento da ansiedade e na perda da " competência alimentar". O crescimento de uma dieta hipercalórica, com excessos de gorduras e carboidratos e a epidemia da obesidade e de doenças cardiovasculares, é a face mais visível de uma perda do sentimento de equilíbrio e temperança.
A alimentação no Brasil também se transforma no século XX com a chegada em massa de imigrantes europeus e asiáticos, e inclusão dos seus pratos no cardápio brasileiro. O resultado é o repertório amplo de regras frouxas de combinação. Mas, como diz Dória, " a desconstrução e a reconstrução são as regras da gastronomia ultramoderna e, de repente, se está diante de uma atualidade inesperada.

sábado, 9 de julho de 2011

Fundo de Emancipação de Escravos -Lei do Ventre Livre

O Fundo de Emancipação de Escravos foi estabelecido pelo Art.3º da Lei 2.040 de 28 de setembro de 1871, era um aporte do Governo Imperial às provincias e aos Municípios, destinado à libertação de escravos. A lei estabeleceu a realização de uma matrícula geral de escravos no país, e a criação também de juntas municipais. Após a matricula e a classificação, os recursos arrecadados para o fundo eram divididos entre cada província de acordo com o número de escravos que possuíssem e também com os municípios, seguindo o mesmo critério. Esses recursos eram destinados à indenização dos senhores de escravos. A Junta examinava cada caso e decidia se a venda era proveitosa à causa da liberdade, aceitando o oferecimento feito pelo senhor do escravo, que era então indenizado plelo Fundo de Emancipação. Se sobrassem recursos eram acumulados para o ano seguinte.Apesar de todos os problemas e irregularidades, o fundo libertou mais de 32.000 escravos em todo o país.

JUNTA DE CLASSIFICAÇÃO DE ESCRAVOS DO MUNICÍPIO DE ACARAPE ( ATUAL REDENÇÃO)

Transcrição- Seção de História do Arquivo Público Estadual Nº2513

Junta de Classificação de escravos, do Município de Acarape, 19 de julho de 1882.

IL.mo Ex.mo S.r

De conformidade com a Lei, tem esta Junta a honra de remeter a V.Ex.cia as cópias authenticas das actas do trabalho de classificação de escravos d'este Município.

Deos Guarde a V.Ex.cia

Il.mo Ex.mo Sr. D.or Sancho de Barros Pimentel

M.D. Presidente da Província

Antonio Leonel de Vasc.os- Presidente
Henrique Mendes cavalcante
Dom.os Band.ra Moraes

Cópia

Acta da primeira reunião da Junta Classificadôra de escravos do Município de Acarape
Aos desecete dias do Mês de julho de mil oitocentos e oitenta a dois, às trez horas da tarde no Paço da Camara Municipal, reunida a Junta classificadôra de escravos d'este Município composta dos senhores Antonio Leonel de Vasconcelos- Prezidente da Câmara Municipal, Henrique Mendes Cavalcante Colletor das rendas Geraes d'este Município, Domingos Bandeira de Menezes- Promotor ad hoc, em virtude do officio circular de vinte sete de maio d'este, sob o número vinte e nove, d'este anno, o Excellentissimo Senhor Prezidente da Provincia, na qual determinou que hoje fosce o primeiro dia de reunião da Junta de classificação de escravos e o mais nos termos da Lei. Compareceu a liberta Damázia, escrava que foi de Joaquim Ferreira Nobre, perante a junta apresentou para auxilio d'alforria de dois filhos a quantia de secenta mil réis sendo um de nome Francisco com doze annos de edade e outro de nome Joanna com quinze annos de edade os quaes sendo de propriedade de Joaquim Ferreira Nobre morador desta Villa, que passou a junta a proceder a avaliação dos referidos escravos e esta avaliou-os em cento e noventa e seis mil e quinhentos e vinte réis, isto de acordo com o collector das rendas geraes e sendo ouvida a Senhora dos mencionados escravos em razão de seu marido Joaquim Ferreira Nobre achar-se ausente da provincia, ella conformou-se com a avaliação feita. A quantia offerecida por Damázia para auxilio da libertação de seus filhos, bem como a matricula fornecida por sua Senhora ficão em poder da Junta para ser remetida ao Juiz Municipal de Órfãos opportunamente. POr nada mais haver a tratar o Senhor Prezidente adiou a sessão para amanhã, às mesmas horas onvidando os mais mezarios, do que para constar mandou lavrar a presente acta em que assigno, com os mais mezários. Eu, Manoel Severiano de Oliveira. escrivão de paz o escrevi.
Antonio Leonel de Vasconcellos -Presidente
Henrique Mendes Cavalcante,
Domingod Bandeira de Menezes Promotor ad hoc.

Acta da Segunda reunião da Junta Classificadôra de escravos pelo fundo de emancipação da quota pertencente ao Município de Acarape.
Aos dezoito dias do mêz de julho, do Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos oitenta e dois nesta Villa do Acarape, na casa da Câmara Municipal, as trez horas da tarde do mesmo dia, reunida a Junta Classificadôra pelo fundo de emancipação em consequência de ordens do Excellentissimo Senhor Prezidente da Província, composta esta dos cidadãos Antonio Leonel de Vasconcellos Presidente da Cãmara Municipal, Henrique Mendes Cavalcante -Collector das rendas geraes d'este Município e Domingos Bandeira de Menezes ad hoc, para o acto nomeado, a fim de comparecer algum intereçado que mais vantagens oferecesse, e não havendo quem mais requeresse, estando esgotado a verba de emancipação destinada a esse Municipio, nem reclamações apresentadas, deu-se por concluida os trabalhos da mesma Junta, ordenando o Prezidente que a quantia apresentada na sessão de hontem pela liberta Damásia, em favor de filhos Francisco e Joanna, de propriedade de Joaquim Ferreira Nobre ( secenta mil réis ) fosce remetida ao Juiz Municipal de Orfâos do Termo, conjuntamente com a matricula dos ditos escravos para o conveniente destino em vista da Lei e igualmente remettida as cópias da actas ao Excellentissimo Senhor Presidente da Provincia bem como ao Juiz de Orfãos do Termo; e não havendo nada mais a fazer deu-se por findo os trabalhos da Junta Classificadora de escravos d'este Muinicipio. E de tudo para constar mandou o prezidente lavrar a presente acta em que assigno com os demasis mezarios. Eu Manoel Severino de Oliveira escrivão do Juizo de Paz que a escrevi. Antonio Leonel de Vasconcellos Presidente, Henrique Mendes Cavalcante, Domingos Bandeira de Menezes. Está conforme.Eu Manoel Severino de Oliveira escrivão do Juiz de Paz subscrevi e assigno. Villa do Acarape , 19 de julho de 1852.O escrivão Manoel Severino de Oliveira


Antonio Leonel de Vasc.os-Presidente
Domingos Bandeira de Menezes.
Henrique Mendes Cavalcante

Secção Histórica do Arquivo Público Estadual do Ceará.

Pesquisa: Teresinha de Lisiê Freire de Souza- Diretora do Museu Histórico Memorial da Liberdade- Redenção- Ce.

terça-feira, 14 de junho de 2011

No Acarape não há mais escravos -AVE' LIBERTAS

Acarape quebra os grilhões da escravatura-a grande festa do Dia da Redenção- Presença de Patrocínio, Serpa, Tibúrcio, Liberato Barroso e "Águia do Rio Grande do Norte"- Joaquim Agostinho Fraga o último sobrevivente da " Campanha Abolicionista do Acarapense" fala à Reportagem de Rubens de Azevedo e Tago Otacílio de Alfeu- especial para "O Estado".

Associando-se às comemorações do Dia da Libertação dos Escravos no Ceará, os repórteres lembraram de dar a sua contribuição, entrevistando o último abencerragem da campanha Abolicionista no Ceará, antigo notário em Acarape- Joaquim Agostinho Fraga.
Ele narra à reportagem como foi decretada a falência do Comércio Negro no Estado, movimento encabeçado pela Vila do Acarape, e do qual tomou parte ativamente. Embora passado dos noventa, o seu tom de voz é ainda forte e seguro, e emocionando-se à recordação dessa página gloriosa de nossa História: com os olhos fixos num ponto invisível: - Foi a 25 de Março de 1884 que o povo cearense escreveu o mais brilhante capítulo de sua grande história; a extinção da escravidão negra. Foi esta terra bendita, que se levantou altaneiramente de norte a sul, num protesto de justa repulsa pela exploração da mercadoria humana. E o resultado disso foi o movimento pró-libertaçaõ dos escravos que vou pormenorizadamennte historiar.
Enquanto o fotógrafo ajeitava o entrevistado, formulava os repórteres o seu questionário. Minutos depois se entabolava o bate-papo. A primeira pergunta surgiu então:
- Quando em Fortaleza a idéia da emancipação dos escravos estava em evolução, Acarape dormia na inciência de tal movimento. Quem dele de início tinha noção e previdência de seu desiderato éramos eu e Manuel Fernandes de Araújo, respecitvamente coletor e escrivão de rendas gerais, pois tínhamos em mãos a sinopse do movimento estatístico e da matrícula do elemento servil. Éramos simples executores da Lei do Rio Branco.
- Qual o mensageiro que conduziu a nova de que o movimento em Fortaleza ia às mil maravilhas? Como procederam os baluartes acarapenses?
- Corria o segundo trimestre do exercício financeiro de 81-82. Vindo Manuel Fernandes de Araújo, coletor, a Fortaleza recolher na Tesouraria da Fazenda o saldo das rendas da coletoria do trimestre anterior, entrou em entendimento com os Chefes da Capital, e vendo a marcha vertiginosa do movimento, voltou maravilhado e me disse:- " Sr. Fraga, o movimento abolicionista na Capital está na ordem do dia . É o assunto de maior importância". Mais tarde, houve um entendimennto entre Araújo e o coletor provincial Cel. Antonio da Silva Matos que juntos, deram os primeiros passos para a propaganda em Acarape. Aí formaram-se duas sociedades:" Sociedade Libertadora Acarapense" e Sociedade Artística Libertadora Acarapense" Então daquela data em deante Acarape em peso ergueu-se altiva e bradou:-ABAIXO O ESCRAVAGISMO!...
-Como eram constituídas as duas agremiações?
- A "Sociedade Libertadora Acarapense" era composta dos Srs. Presidente- Cel.Gil Ferreira Gomes de Maria, Vice-dito Cel. Antonio Silva Matos; Tesoureiro: Padre Luis Bezerra da Rocha; 1º Secetário: Tenente Henrique Pinheiro Texeira; 2º dito Francisco Hermano Gomes Carneiro e Orador: Diocleciano Ribeiro de Menezes. A "Sociedade Artística Libertadora Acarapense" foi assim organizada: Presidente: José Raimundo Carvalho; Vice-dito; Procurador Benigno Gonçalves Glória; Tesoureiro: Luiz Martins; 1º Secretário: João Alberto de Melo; 2º dito: Joaquim Agostinho Fraga e Oradores: Diocleciano Ribeiro de Menezes e Aleixo Anastácio Gomes. É bem dizer, exceto persona mea, a flor social do Acarape.
- Em Acarap, quem primeiro libertou escravos e quais os que seguiram?
O exemplo foi dado pelo Cel. Antonio Silva Matos, então coletor da província e vice -presidente da "Sociedade Libertadora Acarapense, que, preparando três escravos que possuía, deu-lhes o alvará de liberdade. O edificante exemplo do Cel. Matos foi seguido por outros conterrâneos de fibra e caráter, figurando entre eles os Srs. Semeão Teles Menezes Jurumenha, que de bom grado alforriou todos os escavos de sua senzala, inclusive, um que há pouco havia comprado por um conto de réis. O segundo abordado no assunto foi José Antonio Oliveira, que exigiu dinheiro para poder libertar seus escravos. Então, os integrantes da Comissão se reuniram e se cotizaram, efetuando o respectivo pagamento, conseguindo libertar os escravos do supra-citado escravocrata. Seguiram-se diversos atos de filantropia praticados pelo Srs. Gil Ferreira de Maria, Cel. Francisco Bemvindo de Vasconcelos, João Duarte Franco, Lúcio José Bonfim e outros. Deram-se ainda várias indenizações como a de José Antonio de Oliveira que nós pobres operários e artistas tivemos que comprar, uma linda e jovem escrava de Francisco José de Souza ( Chico Batista), que sendo pobre e adepto de nossa sagrada causa se satisfez com a quantia de quatrocentos mil réis.
-O movimento continuou sepre até o fim com a mesma vibração do início?
-Aumentou dia a dia. A alegria era tão grande e entusiasticamente que em Acarape, quem não possuía escravos desejava tê-los para poder dizer: "Já libertei os meus..." O Cel. Emiliano Cavalcante conseguiu que o sr. Antonio Tomáz de Silveira fizesse a doação de uma escrava que se achava em seu poder de nome Joaquina e em ato contínuo entregou-lhe a carta de liberdade. A escritura de doação está em poder da família do Cel. Emiliano.
-Como se reuniam os lideres?
-Nós nos reuníamos abertamente. Fazíamos sessões para todo o mundo num ambiente democrático. Antes de terminar o mês de Dezembro de 1882, fizemos uma grande reunião , a qwual contou com a honrosa presença de membros representantes de " Libertadora Cearense" e das classes trabalhistas. Na referida sessão, entre os que fizeram uso da palavra, figurava o Dr. Frederico Augusto Borges. Seguiu-lhe o Padre Luiz Bezerra da Rocha, com palavras vibrantes. Depois o jornalista José Joaquim Teles Marrocos, representante da imprensa metropolitana, e por último o estudante Antônio de Matos Fortes. Duas libertas do Cel. Benvindo de Vasconcelos chamadas Luiza e Tereza tomaram assento na Mesa dirigente das festividades, recebendo solenemente as cartas de liberdade. Encerrada a sessão, fizeram-se "meetings" e ouviram os gritos de : "No Acarape não haverá mais escravos! "Ave Libertas!"
-Sabiam de antemão qual seria o dia da Redenção?
-Estivemos sempre em contato com a "Libertadora Cearense", a qual instrui-nos sobre os preparativos da magna solenidade.
Raiou, afinal, o dia tão anciosamente esperado; a própria natureza se engalanou, realçando o deslumbramento e a beleza das festividades:o horizonte se ornou de nuvens multicores e agrupadas. Os cimos dos montes aureolados pelo sol nascente.
Tudo exuberando alegria. A praça da Matriz semelhava-se um jardim; leques de palmeiras, crotóns, arbustos floridos, bamdeiras de variadas cores tremulando nas fachadas dos prédios. A multidão se adensava na grande praça aguardando a chegada da caravana de Fortaleza, que conduzia os pioneiros da liberdade.
-Como foi recepcionada a caravana libertadora de Fortaleza?
Pelas 8:30 da manhã, ouviu-se o apito estridente de Sinimbú, primeira grande máquina vinda para a nossa via férrea e com ele o espoucar dos foguetões e das girândolas anunciando a chegada do trem. Quando num ângulo da Praça da Matriz apontou a onda de cavaleiros, foi um verdadeiro delírio: as bombas espoucavam ensurdecedoramente. As bandas de música da Policia Estadual e dos 11° Batalhão de Infantaria executavam belíssimas peças a capricho. Logo após foi cantado o Hino da Libertação.
- Fale-me sobre a sessão de recepção comitiva.
- Aberta a sessão foi dada a palavra ao General Tibúrcio, que, depois de declinar da honra, passou-a ao Conselheiro Liberato Barroso. Este, logo em seguida, concedeu a palavra ao grande orador José do Patrocínio. Entre outras coisas disse:
"Para se conhecer a grandeza desta festa, basta vermos a cabeceira da mesa o Parlamento Brasileiro representado pela pessoa do Exmo. Sr Conselheiro Liberato Barroso - o Parlamento é a idéia - à sua direita está a espada vencedora - o Exercito Brasileiro, repesentado na pessoa do insígne General Antonio Tibúrcio Ferreira Souza! À esquerda, a Igreja Católica que convence das verdades eternas representada condignamente pelo Rvmo. Cel. Pe. Silveira Guerra. Portanto, Senhores, temos aqui três cousas distintas: a idéia que ilumina, a espada que vence e o sacerdote que convence!"
Depois de muitos aplausos, subiu à tribuna o incomparável Justinino de Serpa. O taquígrafo impotente para lhe apanhar a torrente de eloquencia das frases. Seguiu-se -lhe o orador Almino Alvares Afonso, cognominado "Águia do Rio Grande do Norte". Guardei na memória uma de suas frases: " Nenhum homem terá direito de propriedade sobre o outro. O ser preto não é efeito. Debaixo da pele negra existeuma alma pura com um livro branco, onde jamais caiu uma lágrima, um borrão ou uma uma idéia!" Depois da sessão, foi oferecido aos visitantes um lauto banquete.
-Desfilaram pelas ruas do Acarape?
Empreendeu-se uma marcha cívica. À frente ia a Comisssão Libertadora; ao lado, o carro ocupado pelo Tenente reformado Francisco Cerqueira Mano, que a grandes brados, atirava flores em profusão para ambos os lados. Parando à porta do nosso companheiro Diocleciano Ribeiro de Menezes, a Comissão entrou comigo até a sala. Déo, como era tratado, recebeu-nos de seu assento- pois estava enfermo- agradeceu-nos comovidíssimo a saudação e ofereceu-nos um óbulo para o fundo de emancipação. Pediu-nos em seguida, para quando se reunisse a Asssembléia , conseguíssemos um projeto: elevar Acarape à categoria de Cidade com a denominação de Redenção. Foi aceito o pedido e cumprida a promessa. Voltando à multudão ao lugar donde partira, estava tudo pronto para o regresso dos visitantes.
(DO "ESTADO" 25 de março de 1945")
Extraído do Livro Fraga- Afetos e Caminhos de uma família que Atravessa Mares, Sertões, desafios e Improvisos- Maria Nazaré de Oliveira Fraga.

Joaquim Agostinho Fraga

Joaquim Agostinho Fraga-Abolicionista, advogado, poeta e músico

Denomina-se FRAGA a última via conhecida de brochura publicada em 1952. É uma homenagem prestada por jornalistas dos periódicos O Estado e Correio do Ceará a Joaquim Agostinho Fraga por sua participação decisiva no movimento que resultou na libertação pioneira dos escravos no Brasil, precisamente em Acarape, hoje Redenção, onde ele se radicou após migrar do Rio Grande do Norte em 1877.

Fraga
1952
TIP ROYAL
Rua senador Pompeu
Fortaleza Ceará