quinta-feira, 14 de abril de 2011
Terra da Luz
Em face do entusiasmo abolicionista do Ceará, tremiam os senhores de escravos. Para vendê-los, tentavam embarcá-los para outras províncias. Dirigidos por Francisco José do Nascimento, os marítimos de Fortaleza resolveram impedir que isso acontecesse. Os embarques eram feitos em jangadas; pois nas jangadas não mais entrariam os cativos! E, em janeiro de 1881, Francisco José do Nascimento (mestre Chico, chamado também Dragão do Mar) ordena que no porto do Ceará não mais se embarcassem escravos! A essa gloriosa província, berço de José de Alencar, chegaram Patrocínio e Paula Nei em 30 de novembro de 1882, sendo recebidos magnificamente.
Dragão do Mar e companheiros não faltaram às homenagens aos dois ilustres brasileiros.
Ao Ceará deu Patrocínio o nome de Terra da Luz, havendo sido agraciado com o título de Cidadão Cearense.
Foram apoteóticas a viagem e a excursão. Patrocínio fatigadíssimo, necessitava de repouso. E seguiu para a Europa.
Apesar de sua ausência, continuavam a campanha e o jornal, porquanto os amigos não fraquejavam.
Em 1º de janeiro de 1883 a cidade cearense de Acarape ( hoje Redenção) liberta a escravatura do município. E a data de 25 de março de 1884 é escolhida para que a província do Ceará extinga o cativeiro em seu território!
A convite dos abolicionistas da Côrte , o Dragão do Mar, em 1884, embarca para o Rio; e traz uma jangada, "Libertadora", para ser entregue no Museu Nacional,(...) O préstilo eletrizou os cariocas, foi aclamadíssimo pelas ruas. Cerca de vinte mil pessoas formavam o cortejo! Enviada, mais tarde ao Arsenal da Marinha da Corte, a jangada Libertadora desapareceu.
Perdeu-se, deste modo,uma relíquia da História do Brasil.
Lá em Paris, em março de 1884, recebe Patrocínio a notícia da libertação dos escravos do Ceará. Exultante, organiza um banquete, a que compareceu a fina flor do jornalismo da capital francesa, políticos, intelectuais! Por doença, não esteve presente Victor Hugo - mas atendendo ao apelo de José do Patrocínio, escreve umas linhas de exaltação à magnânima atitude cearense. Entre os convivas, o apóstolo negro fez distribuir seu opúsculo "L'affranchissement des esclaves de la províncie de Ceará, du Brésil"
Texto transcrito de "Patrocínio, o abolicionista". João Guimarães. Editora Melhoramentos - 1967
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Redenção- Otacílio de Azevedo
que arde aos beijos do sol que ilumina a amplidão
dentro do círculo de pedras de um planalto,
fulge alegre e feliz, radiosa, Redenção!
Banha-lhe o corpo glauco a linfa azul que desce
de topázio em topázio, ao seu próvido seio
cuja fonte é Pau-d'Alho, a mesma engrandece
a bacia fluvial do Acarape do Meio.
Rochedos ancestrais, copiosa caça escondem...
Há peixe, o fruto, e o mel de auríferas abelhas.
Lá em baixo, olhando do alto, às mil se corresponde
casas brancas de luar, com o pôr do sol nas telhas...
(...)
Das longas chaminés saem novelos de fumo...
A moagem principia. A colheita é depois.
O caminhão, rasgando estradas, segue o rumo
onde, outrora, gemeu o carro de bois...
Do milharal maduro, o oiro as espigas veste.
O algodoeiro capulha, o arroz, flébil, cacheia
Verde, o bananeiral alça as folhas e investe contra o vento.
Do rio houve a última cheia.
O canavial levanta as espadas esguias
das folhas à bandeira azul do firmamento,
Vibram da luz solar nas claras ardentias
os penachos de pluma, oscilantes, ao vento!
É um mar revolto que se move e convulsiona
outro mar de pendões que os sítios engrinalda.
Milhões de aves, ruflando as asas, vêm-lhe à tona
como estrelas,a flux,sobre um céu de esmeralda.
(...)
Ainda trago à memória a Redenção antiga,
com seus morteiros no alto e suas noites de festas,
Do ermo carro de bois a saudosa cantiga,
e a casa onde morei, entre lianas e giestas...
(...)
O ambiente lhe perfuma o roseiral silvestre,
a baunilha,o mofumbo,o amplo imbuzeiro em flor
é um garbo se lhe ver a paisagem campestre,
-fonte de inspiraçao do poeta pintor.
(..)
-É o rincão varonil de antepassada glória,
que os grilhoões rebentou da humana gente escrava
cujo feito impoluto assinou na História
a página de luz que o Brasil desejava!
Terra em que despertei do casulo do sonho,
-crisálida do ideal numa ansiedade inquieta,
para as asas abrir sobre o espaço risonho,
na efêmera eascenção de um noco Ícaro,poeta!
A praça principal D. Isabel, a igreja,
testemunha do feito heróico de seu povo,
amplas torres levanta ao espaço e o sol as beija
através de um sorriso, aurifulgente e novo!
Com argênteo brilhante incrustada na borda
da serra, entre florões de madressilvas e acácia,
uma linda aquarela esplêndida recorda
a capelinha de Santa Rita de Cássia
Voltemos, entretanto,ao passado... Há uns cinquenta
e sete anos à gleba a que amo e idolatro...
De tudo o que se segue, em época nevoenta,
Redenção, Acarape a esse tempo, foi teatro.
Sobe o pano... O cenário é a imensa praça antiga
do Mercado onde estão a classe pobre e a média.
Nem Shakespeare lhes suplanta o enredo-atroz que o diga
o exórdio principal da histórica Tragédia.
Juntam-se, em plena praça, os asseclas do crime
-É o dia designado à horripilante feira.
A ânsia atroz do ludibrio e a ganância oprime
toda a corja que exulta e se põe em fileira.
É o conjunto bestial da torpe vilania,
do despotismo, da luxúria e vilipêndio.
Em cada rubro olhar e ignea volúpia ardia
do sinistro clarão de um coruscante incêndio!
Era o instinto feroz do escravocrata odioso,
que a raça negra subjugava, à revelia,
com o direito integral de interceptar-lhe o gozo
da ventura, sequer, de ser feliz um dia!
E o comércio venal do estrangeiro africano,
de espírito revel, relapso, ignóbil, espúrio
que além de negociar o frágil ventre humano,
supera, em perspicácia, o olípimpico Mercúrio!
A cabloca é vendida a quem der maior lance!
Despem-na, como outrora, à helênica Frinéia...
Nem Castro Alves sonhara o trágico romance
cujo enredo equivale à mais rubra epopéia!
(...)
Dentre a senzala, que era berço e que era tecto,
e que, em verdade, não passava de enxovia,
a asa de oiro baixou de um sonho predileto,
-a esperança final da carta de alforria...
(...)
Mas Redenção que se aguardava há muito ansiosa,
mal a aurora rompeu do ano de oitenta e três
quis por seu turno a rebelião mais gloriosa
que o resto do Brasil, proclamara-a de vez!
Foi o primeiro de janeiro daquele ano
que o corpo lhe correu, com elétrica pilha
o bravo destemor mais sagrado e humano,
e mais glorioso que a tomada da Bastilha!
(...)
O momento em que ecoou, de quebrada em quebrada,
de serra em serra, ao longe, o estribilho supremo...
Hora em que a escrava poderia ser amada
e a rosa deste amor desabrochar no extremo!
(...)
Nunca mais dormireis no duro chão duro de argila,
onde passáveis os momentos mais amargos,
sob o tremndo olhar do guarda- cão de fila-
que era Cérbero e tinha vigilância de Argus!
Todas as ruas se embandeiram de mil cores,
é impossível supor a alegria geral...
Atapetam-se em cheio, as calçadas de flores,
dizem velhinhos:-Nunca houve festa igual!
Cruzam de palhas de coqueiros as esquinas,
a quisa de arcos de triunfo. O sino plange...
-É a chamada dos fiés, às horas das matinas.
Crepuscula. Da lua aparece o áureo alfange.
(...)
Foi um dia de festa e regogijo. As praças
regurgitam. E o grande ideal venceu...
O apóstolo de Deus a missa canta, em graças
do instante mais feliz que o Acarape viveu!
E os cabelos, salamâmdricas serpentes,
que estorteceram, venenosas, pelo chão,
semelhavam,depois, as tétricas correntes
cujos elos quebrou sozinha, Redenção!
(...)
Recebe, pois meu verso humílimo, num fausto
de ansia e veneração- nostálgico penhor
que te irá oscular, num profundo holocausto,
na infinita extensão deste infinito amor!
Fortaleza, dezembro de 1943
Otácilio de Azevedo nasceu em Redenção.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
ABAIXO A ESCRAVIDÃO
Em meio das grandes idéias que nobilitam nosso século, uma grande vergonha faz ainda corar a nossa pátria querida.
É a vergonha da escravidão!
E ser o Brazil este paíz immenso, como immenso é seu território, livre como sam livres suas matas seculares, cujas frondes topetam as nuvens, altivo como altivas sam as catadupas que sorguem as águas de seus rios-oceanos, rico, como rica é a vegetação de seu solo, majestoso, como magestosa é perspectiva de sua natureza, que há de conter em seu seio o elemento servil, clemente de vergonha, que desconceitua na opinião das nações civilisadas?
Oh não, é tempo que desappareça do meio de nós a infâmia que retarda o nosso progresso e nos distancia do lugar que compete-nos no congresso das nações.
Em quanto a liberdade não congraçar-nos no mesmo amplexo, como irmãos que somos perante Deus e a humanidade, perante a civilização e o progresso, seremos um povo sem autonomia, sem consciência do nosso valor , por quanto amesquinha a nossa grandeza, as instituições liberaes que nos governam, o desequilíbrio de acção, o poderio forte contra o fraco, do senhor contra o escravo, cuja permanência criminosa, a despeito dos brados de indgnação da imprensa livre, atira ainda à face da nação a repetição de scenas de horrores, praticadas a sangue frio e em pleno século XIX.
Oh! não; a escravidão não tem mais rasão de ser; desapparecida de todas as nações que com grandes sacrifícios lavaram-na de seu solo, desapparecerá também de do Brazil, que deve orgulhar-se de não ceder-lhes o passo na expansão dos sentimentos generosos.
Só assim teremos fé no futuro que se lhe desenrola deslumbrante, na attitude soberana , que deve assum ir como ação culta e que dam-lhe o direito as forças vitaes de que dispõe.
Está mais que provado que só o trabalho é que ennobrece, e não aquelle que augmenta a fortuna pública, amontoada a custa das lágrimas e do sangue dos desgraçados.
Se uma parte do império só sabe elevar-se auxiliada pelo braço do escravo, que lhe proporciona as commodidades da riqueza, além da uberdade do solo, das regularidades das estações, da doçura do clima, que tudo lhe é favoravel, nos os desamparados da fortuna, que luctamos com as calamidades inerentes a posição geographica de nosso torrão , para quem a vida é difícil e exige constante trabalho; nós beduínos do deserto, acostumados a arrancar do solo o sustento quotidiano com muito suor da fronte, devemos orgulhar-nos de termos sido os primeiros que enunciamos o trabalho e que primeiro extinguiremo o elemento servil que tanto destoa do nosso adiantamento.
(...)
Viva a liberdade!
Abaixo a escravidão"
Transcrito do LIBERTADOR- Orgão daSociedade Cearense Libertadora- Edição fac-similar 1988
Teresinha de Lisiê Freire
quarta-feira, 23 de março de 2011
Redenção vive outro momento de liberdade com a Unilab
O movimento abolicionista no Ceará inspirou um grupo de moradores de Redenção (na época Villa do Acarape) no sentido se organizarem para libertar seus escravos. Foram fundadas duas associações: a Sociedade Libertadora Acarapense e a Sociedade Libertadora Artística Cearense formada por estudantes, senhores da sociedade, artistas, o pároco Luis Bezerra da Rocha. Em novembro de 1882, uma comissão formada por João Cordeiro, Almino Affonso, Antônio Martins, Frederico Borges e José Marrocos fizeram uma visita ao município com o propósito de apoiar o movimento abolicionista que aqui se formava. Foram recebidos pelo Pe. Luis Bezerra da Rocha e Deocleciano Ribeiro de Menezes na residência do Sr. Antônio da Silva Matos, que para dar credibilidade ao movimento entregou a carta de alforria a um escravo.
No mês de dezembro, uma representação da Sociedade Redentora Acarapense viajou para Fortaleza a fim de solicitar apoio e colaboração monetária para a compra das alforrias , já que os fazendeiros aceitaram alforriar seus escravos, desde que fossem indenizados. Na época José do Patrocínio se encontrava no Ceará e junto com a Sociedade Libertadora Cearense participou do movimento para arrecadar o valor estipulado. O grande tribuno negro fazia conferencias no teatro São Luís, as entradas eram pagas e o produto destinado às alforrias dos escravos da Villa do Acarape. O jornal Libertador fez uma grande campanha e abriu uma lista de arrecadação na capital, houve bastante contribuição e a lista cresceu. A população da Villa do Acarape também contribui com 300$000.
Com o valor total arrecadado só faltava marcar o dia da celebração. Foi escolhido o dia 1º de janeiro de 1883 para a grande festa. Uma comitiva saiu de Fortaleza nos vagões da locomotiva a vapor denominada Sinimbu. Aqui foram recebidos em festa, a sessão foi presidida por Liberato Barroso. A multidão aplaudia os oradores, José do Patrocínio fez um discurso inflamado. Justiniano de Serpa assim se pronunciou: estamos na Canaã da Liberdade. A vibração dos oradores durou até a entrega das alforrias a todos os escravos. À tarde a comitiva retornou a Fortaleza, sendo recebida com festa e foi levada até a redação do Jornal Libertador, onde as manifestações duraram até a meia-noite. (fonte: Raimundo Girão - A Abolição no Ceará e Museu Histórico e Memorial da Liberdade).
Por conta dessa história protagonizada e celebrada pelos redencionistas, o ex- presidente Luís Inácio da Silva, com o aval do Governador Cid Gomes, escolheu Redenção para sediar a 2ª Universidade Federal do Ceará, a Unilab - Universidade Internacional da Integração Afro-Brasileira. O campus provisório denominado campus da Liberdade está localizado no prédio onde funcionou a prefeitura,o mesmo foi cedido pela administração municipal. O compromisso da Unilab é gerar conhecimentos científicos e tecnológicos necessários à prosperidade dos brasileiros como também dos países lusófonos. Assim como aqueles que promoveram a libertação dos escravos, todos que se empenharam pela implantação dessa universidade estão escrevendo uma nova página de sucesso, de libertação educacional, cultural, econômica e social, dando oportunidades não só aos moradores dessa região, também do Ceará e dos países envolvidos. As oportunidades estão surgindo, era quase impossível, por exemplo, o filho de um agricultor que mora na zona rural das diversas localidades do maciço de Baturité entrar numa universidade. Isso hoje é uma realidade o processo de seleção aconteceu e muitos estarão a partir de maio, cursando Agronomia, Administração Pública, Ciências da Natureza e Matemática, Enfermagem e Engenharia de Energia.



